As certezas são menos interessantes [Pedro Paixão]

Dezembro 3, 2017/Excerto

Não sei se foste tu que me encontraste ou eu que te encontrei a ti. Não sei se isso pode alterar o que quer que seja. As relações entre as pessoas são labirintos onde é mais fácil entrar do que sair. Uma parte é um jogo. Um jogo muito sério. Pode ser perigoso. É sempre perigoso. Se não o fosse não valeria a pena. O perigo de nos perdermos: amar e deixar de amar. Um jogo que não dominamos, cujas regras não conhecemos de antemão e, por vezes, se vão revelando tarde demais. Jogos sem saída, como becos. É aqui que sou perita. Jogos que ficam por acabar. Há também papéis a desempenhar, como no teatro, e não são sempre os mesmos para cada um dos protagonistas. Um faz de ladrão, o outro de fugitivo. Um faz de cicerone, o outro de estrangeiro que visita pela primeira vez a cidade. Um faz de malandro, o outro de inocente. Um quer seduzir a qualquer preço, o outro quer ser seduzido a qualquer custo. O que me parece decisivo neste jogo de animais inteligentes é não se poder conhecer previamente o desfecho. É isso que faz prolongar e crescer a intensidade, a dúvida, a insuperável dúvida. As certezas são menos interessantes. Pelo menos no jogo do amor, ou se calhar em tudo.

[Pedro Paixão]

TeresaRolla.com