Pergunta ao Google!

Novembro 3, 2017/Excerto

“Se juntarmos todos os pontos, e se concedermos à Google e às empresas concorrentes o acesso aos nossos aparelhos biométricos, exames de ADN e registos médicos, teremos um serviço de saúde omnisciente, que não só combaterá as epidemias como também nos protegerá do cancro, dos ataques de coração e do Alzheimer. Porém, com uma base de dados desse género, a Google poderia fazer muito mais. Pense num sistema que, como dizia a famosa canção dos Police, esteja atento a cada suspiro seu, a cada passo que der e a cada laço que romper. Um sistema que controle a sua conta bancária e o seu ritmo cardíaco, os seus níveis de açúcar e as suas extravagâncias sexuais. Sem dúvida que esse sistema o conhecerá melhor do que você se conhece a si próprio. As pessoas que se enganam e se iludem a si próprias para não saírem de relações negativas, para não deixarem as profissões erradas ou para não abandonarem hábitos perniciosos não vão poder ludibriar a Google. Ao contrário do ser narrador que atualmente nos controla, a Google não irá tomar decisões com base em histórias da carochinha e não será induzida em erro por atalhos cognitivos. A Google saberá todos os passos que demos e quais as pessoas que cumprimentámos.

Muitas pessoas passarão de bom grado muitos dos seus processos de decisão para as mãos de um sistema idêntico ou, pelo menos, irão consultá-lo sempre que tenham que tomar decisões cruciais. A Google aconselhar-nos-á que filme devemos ver, onde passar férias, que curso escolher, que emprego aceitar e até mesmo com quem namorar e casar. Eu direi: “Ouve, Google, o João e o Paulo estão ambos interessados em mim. Gosto dos dois, mas de maneiras diferentes, e não me consigo decidir. Com toda a informação que tens ao teu dispor, o que me aconselhas?” E a Google dirá: “Bem, conheço-te desde que nasceste. Li todos os teus emails, gravei todas as tuas chamadas, sei quais são os teus filmes preferidos, conheço o teu ADN e todo o teu historial cardíaco. Tenho dados precisos sobre todos os teus encontros e, se quiseres, posso mostrar-te gráficos ao segundo do teu ritmo cardíaco, tensão arterial e níveis de açúcar de cada vez que que saíste com o João ou com o Paulo. Se for necessário posso dar-te uma tabela matematicamente exata de todos os encontros sexuais que tiveste com cada um deles. E, como é natural, conheço-os tão bem a eles como te conheço a ti. Com base em toda a informação, nos meus algoritmos fantásticos e em estatísticas sobre milhões de relações ao longo de décadas, aconselho-te a escolheres o João, com uma probabilidade de 87% de satisfação a longo prazo. Na verdade, conheço-te tão bem que sei igualmente que esta não era a resposta que querias ouvir. O Paulo é mais bonito que o João, e como dás uma grande importância ao aspeto físico desejavas no íntimo que eu te aconselhasse a escolher o Paulo. Claro que a aparência conta, mas não tanto como tu pensas. Os teus algoritmos bioquímicos – que evoluíram há dezenas de milhares de anos nas savanas de África – dão ao aspeto físico um peso de 35% na avaliação geral de potenciais parceiros. Os meus algoritmos – que se baseiam nas estatísticas e nos estudos mais atualizados – dizem que o aspeto físico tem apenas 14% de impacto no sucesso a longo prazo de uma relação amorosa. Assim, mesmo tendo em conta o aspeto físico do Paulo, continuo a dizer-te que o João é a melhor escolha para ti.”

Em troca de um serviço de aconselhamento tão cuidadoso, seremos obrigados a desistir da ideia de que os humanos são indivíduos e que cada ser humano tem livre-arbítrio para decidir o que é bom, o que é belo e qual o sentido da vida. Os seres humanos deixarão de ser entidades autónomas guiadas pelas histórias inventadas pelo ser narrador. Em vez disso, serão partes integrantes de uma imensa rede global.”

[Yuval Harari, in Homo Deus]

TeresaRolla.com