Podemos comprar seres humanos?

Julho 20, 2017/Blog

Eu sei que este assunto já passou e o hashtag mudou para #ciganos mas continuo a ter umas certas dúvidas sobre a questão dos filhos que o Cristiano Ronaldo comprou. Ora bem, sendo eu uma defensora do aborto e da eutanásia posso, ao mesmo tempo, não defender o uso de barrigas de aluguer por pessoas saudáveis?

Em Portugal, o acesso à gestação de substituição (vulgo barriga de aluguer) só é permitido em caso de necessidade extrema, isto é, lesões, doenças ou mesmo ausência do útero que impossibilitem de forma absoluta e definitiva que uma mulher engravide. Isto acontece em Portugal mas, graças a Cristiano Ronaldo, todos sabemos que o mesmo regulamento não se aplica nos Estados Unidos.

Cristiano Ronaldo comprou seres humanos. Esta é a primeira e inalienável questão que se me coloca. Afinal, não tínhamos decidido que os seres humanos não são suscetíveis de serem mercadoria? Ah, pois, estávamos a falar de escravatura e aqui falamos de amor, mas… mesmo assim, não há qualquer coisa de extremamente acutilante nesta forma de amor? Há qualquer coisa de egoísta num ser humano que decide de animo leve que os filhos não vão ter mãe, ou pai. Só porque não queremos que esse outro ser pese na equação, na criação e na educação, um egoísmo emocional diria eu… Ou, como todo este processo só está ao alcance de pessoas afortunadas economicamente, um egoísmo financeiro, e a certeza de uma herança intocada sem nenhuma necessidade de assegurar custódias milionárias em tribunal caso houvesse um outro progenitor. Tudo isto pressupõe um calculismo atroz que me confunde e me faz achar que a humanidade, como a conhecemos, está perto do fim.

Os orfanatos estão cheios e há milhares de crianças a precisarem de ser adotadas porque não foram desejadas. E esta constatação leva-me à segunda questão sobre este assunto: porque é que Cristiano Ronaldo não adotou crianças que tanto precisavam de um pai já que não têm nenhum? Porque o mundo evoluiu, para o bem e para o mal, e a medicina que nos permite curar epidemias e cancros, também nos permite fabricar seres humanos – sem obrigatoriamente os dividirmos com outro reprodutor e, ao mesmo tempo, assegurar que a nossa genética lhes é passada! Mas, voltando ao início, todo este processo é uma compra. E, mais uma vez o mundo prova que, aos ricos, é-lhes assegurado, sempre, o direito a comprarem tudo o que querem, até vidas humanas.

O que eu gostava mesmo de perceber é como é que a maior parte da opinião pública acha tudo isto normal e não vê nada de estranho nesta equação de filhos por encomenda. Se fosse o André Ventura a comprar filhos, eu queria ver.

Teresa Rolla

TeresaRolla.com