Entrevista a Pedro Boucherie Mendes

Julho 6, 2017/Blog

Pedro Boucherie Mendes é licenciado em comunicação e fez uma pós-graduação em ciência política. Trabalhou em rádio e em imprensa escrita. Foi diretor da revista FHM, fez parte do painel de jurados do programa Ídolos, escreveu quatro livros e é, atualmente, coordenador dos canais temáticos da SIC.

Teresa Rolla: Dirigiste a FHM, coordenaste canais de TV, fizeste televisão e escreveste livros. Onde te sentiste mais realizado?

Pedro Boucherie Mendes: Em lado nenhum e em todos (a espaços). Feliz ou infelizmente não vejo a vida como uma fonte de prazer ou realização, mas como um conjunto de coisas que nos acontecem e às quais temos de reagir do melhor modo que formos capazes.

TR: És reconhecido por dizeres sempre o que pensas. Arrependes-te muitas vezes?

PBM: Nunca. Não poderia ser de outro modo. Mas por vezes há consequências que me irritam. Não quero nada ser gostado mas aprecio que as pessoas, ainda que discordem, percebam onde eu queria chegar.

TR: A participação em programas da Radical e acima de tudo, o Ídolos, trouxe-te reconhecimento público. Como lidas com o facto de toda a gente te conhecer?

PBM: Já foi pior. As pessoas ficam a olhar fixamente como se as pessoas conhecidas estivessem no zoológico e isso é muito irritante. Mas a coisa vai atenuando com a idade.

TR: Porque é que a televisão mudou o mundo?

PBM: O que mudou o mundo verdadeiramente foram as pessoas. E através da tecnologia as pessoas foram mudando o mundo das outras. Com um cacete o homem das cavernas pôde caçar. Com o motor a vapor, milénios mais tarde, tudo começou a andar mais depressa. Com a descoberta das ondas electromagnéticas um tipo perguntou-se se era possível transmitir imagens à distância. E foi no que deu. Ou seja, a televisão é uma invenção que resulta de uma interrogação que um tipo tinha com os seus botões, não uma espécie de estratégia para narcotizar o povo. Mas respondendo directamente: foi a televisão, através de uma cobertura solene, sensata e de Estado às exéquias de JFK, quem segurou a América naquele tempo. Foi a televisão que ensinou línguas a muita gente, quem mostrou profissões, locais, imaginários a outras. Foi a televisão que nos informou de muita coisa e nos abriu os olhos para outras. A televisão melhora-nos e aproxima-nos todos os dias. Também é chata e intrusiva? Isso até a mulher mais bonita (ou o homem mais bonito)!

TR: Houve quem dissesse que a televisão estava com atestado de óbito marcado, concordas?

PBM: Não. Nenhuma forma de expressão, da plasticina à televisão, passando pela poesia ou pelas esculturas em balões, alguma vez se extinguirá enquanto houver quem as ache interessantes.

TR: O que é um bom conteúdo televisivo?

PBM: Em 2017 é todo aquele que consegue que não vamos ao Facebook ou ao Twitter enquanto o vemos.

TR: O que é que falta à televisão portuguesa?

PBM: Dinheiro em primeiro lugar. E depois um público que saiba ser mais exigente e menos maledicente. Em terceiro lugar fazer mais para fazer melhor.

TR: A televisão, em geral, promove a liberdade de expressão e de ideais ou, pelo contrário, formata-nos num pensamento comum?

PBM: As duas coisas. Mas as pessoas precisam de “pensamentos comuns”, a verdade é essa. Precisam de se achar boas pessoas, de se sentirem bem e sobretudo de espaçarem à humilhação de se sentirem menos que os outros. A igualdade – e a igualdade de crenças é uma forma de igualdade – nivela-nos e diz-nos que o vizinho não é mais do que nós.

TR: Ao vivermos na era das “fake news” e da “pós-verdade” ainda podemos acreditar que a informação não é manipulada?

PBM: Não sei, nem me interessa sinceramente. Poderemos sempre contar com o inesperado, o abrupto ou o improvável. E podemos sempre contar com uns a quererem ser mais espertos que os outros.

TR: Qual é a mais-valia de um canal temático?

PBM: Depende. Mas em princípio é um sítio com o qual te identificas e que escolhe coisas de que gostarás por ti – e te facilita a vida.

TR: A televisão concorre, hoje, diretamente com a internet?

PBM: Sim, mas há espaço para ambos.

TR: Qual é a tua opinião sobre as redes sociais e os conteúdos que se expõem lá?

PBM: Há muita coisa boa, muita gente interessante e aprende-se muito. E há muito lixo, claro.

TR: És particularmente atento às características dos portugueses. O que é, para ti, ser português?

PBM: É ser alguém quando se olha ao espelho se convence que é melhor que os outros. Curiosamente é essa a nossa essência: um insuportável e infantil sentido de superioridade que escondemos em camadas e camadas de modéstia, simpatia, agressividade etc. Isso nota-se de muitas maneiras. Os portugueses na verdade não suportam um Mourinho ou um Cristiano porque sabem que estes são de facto melhores que eles. Os portugueses adoram dizer mal de americanos, espanhóis, franceses, etc porque se acham melhores e sobretudo porque precisam de se achar melhores, como aquela mulher velha e gasta precisa de sentir mais bonita e desejada que as garotas novas que passam por ela na rua. Os portugueses deliram que se elogie as suas praias por pura vaidade e agem como se tivessem sido eles próprios a meter lá a areia e as rochas à volta, como se uma praia não fosse um mero acaso geográfico.

TR: Qual é o teu programa de televisão preferido de todos os tempos? E o atual?

PBM: Vai variando, mas Seinfeld ainda está no número um. Porque tudo aquilo é muito melhor do que qualquer cosia que eu alguma vez fiz ou farei. E porque é muito divertido de um modo muito desprendido e saudável. E porque em cima de isso tudo é muito, muito sério na lição que nos dá de não levarmos a vida como se fosse um drama.

TR: Ver Televisão, ler, ouvir música. Tinhas de escolher uma para nunca mais fazer. Qual seria?

PBM: Nunca abdicaria de ler. Talvez escolhesse ficar sem música porque gosto mesmo muito de ver tv.

TR: Qual é o teu livro preferido? Porquê?

PBM: Não tenho e acho que nunca terei.

TeresaRolla.com