Incêndios e Questões Políticas, de Londres a Pedrógão Grande

Junho 18, 2017/Blog

Como é que se explica que em pleno século XXI um prédio de 24 andares arda por completo numa das capitais mais cosmopolitas do mundo? Não se explica. Pelo menos não facilmente.

Latimer Road fica na zona oeste de Londres, muito perto do famoso bairro de Notting Hill e faz parte da “Freguesia” de Kensington e Chelsea, reconhecida como “royal borough”, que em português podemos traduzir como distrito real. Esta é uma zona cara de Londres e talvez por isso seja ainda mais incompreensível que uma tragédia destas aconteça. Afinal, não se espera que 600 pessoas “ricas” vejam a sua vida dizimada por um incêndio incontrolável. O problema é exatamente esse – a torre Grenfell faz parte de um sistema de habitação social e só por acaso é que se situa nesta zona de Londres – e é aqui que tudo isto se torna uma questão política.

Um exemplo ilustrativo desta questão saiu no The Guardian de sexta-feira, onde um residente anónimo que vive perto da torre de Grenfell condena as prioridades financeiras das autoridades locais. Nesse testemunho ficamos a saber que todos os residentes que pagaram o “imposto do município” na íntegra receberam um bónus anual de £100. Ora, é sabido que muitos dos moradores de habitações sociais não têm que pagar este imposto na íntegra estando ao abrigo de políticas de desconto. No entanto, a questão que se coloca nem é essa – o mais importante a retirar deste artigo é o facto do “Presidente da Junta de Freguesia” de Kensington e Chelsea, Paget-Brown, assumir que este bónus acontece devido a uma gestão financeira cuidadosa que proporcionou melhoramentos consistentes e eficientes nos serviços da freguesia. Paget-Brown confidenciou ainda a um site conservador que “graças a uma unidade de eficiência e superação” a Freguesia se encontrava “bem à frente das suas metas de poupança para o ano”. Perante esta informação o que nos resta pensar sobre o material de revestimento da torre Grenfall quando nos dizem que é do mais inflamável que existe? Uma “Junta de Freguesia” que oferece bónus anuais tem que poupar em algum sítio e, neste caso, foi preciso “ver” o inferno para percebermos onde se esconde o diabo.

Muito mais pode ser dito acerca desta trágica quarta-feira londrina. A forma como a Primeira Ministra lidou com o caso, a sua frieza em direto na BBC2 e o facto de não responder às perguntas diretas que lhe foram feitas, valeu-lhe vaias e manifestações contra a forma como está a gerir o incidente; o facto de ter preferido não se encontrar com as vítimas diretas contrastando com os abraços “sentidos” de Jeremy Corbyn; a falta de coordenação por parte do governo e das autoridades municipais que não sabem responder às várias questões que lhes são postas pelas pessoas que ficaram sem casa; o facto de terem sido as mesquitas muçulmanas as primeiras a agilizar auxílio às pessoas que estavam a ser vítimas do fogo; o triste relato que nos conta que as autoridades aconselharam as pessoas a permanecer nos apartamentos em vez de saírem para a rua são só alguns dos pormenores que cercam este triste episódio que aconteceu numa das maiores capitais do mundo.

Incêndios e questões políticas continuam de mãos dadas em Portugal. Todos os anos o país é vítima de chamas que queimam quilómetros de floresta e ontem à tarde o cenário repetiu-se com 156 incêndios ativos em simultâneo (palavras de António Costa em direto durante a madrugada). Desde essa altura já morreram 61 pessoas num dos maiores incêndios de que há memória. Pedrógão Grande é o nome que enche os telejornais e as notícias que circulam pela internet. Situada entre Leiria e Castelo Branco esta é uma localidade rural que se enquadra na sub-região do Pinhal Interior Norte. Como todas as regiões rurais do país a densidade populacional é baixa, o que faz com que as atenções poucas vezes se concentrem nos seus problemas. A prova disso mesmo são os constantes incêndios que este tipo de região sofre todos os anos sem que se note qualquer melhoria na prevenção dos mesmos.

Como é que um país que sabe as características da sua floresta (maioritariamente constituída por pinheiros e eucaliptos) e a facilidade com que esta se pode inflamar, tem um território com tão pouco ordenamento, vigilância e regulamentação? Como é que um país que todos os anos assume a sua falta de prevenção deixa que no ano seguinte a tragédia se torne ainda maior? Como é que um país onde se sabe que as zonas rurais são bombas-relógio prontas a incendiar-se gasta milhares de euros em festas populares e fogos de artifício e deixa matas por limpar? Como é que um país que deveria ser “especialista” em incêndios assume que tem falta de bombeiros e de meios de combate? Para onde foram canalizadas as verbas que deveriam incentivar o aumento do número destes heróis que todos os anos salvam a vida a milhares de pessoas? Estas são só algumas das questões que tornam os incêndios uma questão política em Portugal, e que me fazem indagar se não haverá um lucro obscuro por trás da desgraça alheia que o fogo proporciona. Porque mesmo num país em que todos estão cientes de que a prevenção aos incêndios florestais deve ser praticada de forma atempada, ela não acontece.

Teresa Rolla

TeresaRolla.com