Review: “A Amiga Genial” de Elena Ferrante

Maio 29, 2017/Review

Elena Ferrante ©Relógio d’Água Editores (2014-2016)

Tetralogia: A Amiga Genial

Primeiro Volume: A Amiga Genial – Infância, Adolescência
Segundo Volume: História do Novo Nome – Juventude
Terceiro Volume: História de Quem Vai e de Quem Fica – Tempo Intermédio
Quarto Volume: História da Menina Perdida – Maturidade, Velhice

Elena Ferrante

Ninguém sabe quem é Elena Ferrante. A informação disponível nos livros que escreve diz-nos apenas que cresceu em Nápoles e que possivelmente viveu por algum tempo fora de Itália. Supõe-se que se formou em Estudos Clássicos, que traduz, ensina e é mãe. As poucas entrevistas que concede são sempre por email e até há bem pouco tempo mais nada se sabia. No entanto, o fenómeno Ferrante atingiu semelhante relevo que várias investigações foram feitas no sentido de descobrir a verdadeira identidade da autora.

Há uns meses (Outubro de 2016) o jornalista italiano Claudio Gatti identificou a autora da tetralogia como sendo Anita Raja, tradutora e mulher do escritor italiano Domenico Starnone, constando ambos na lista de “suspeitos” de serem Elena Ferrante há já uns anos. Se há provas consistentes? Sim e não. Segundo o artigo publicado por Gatti no New York Times, a sua conclusão é fundamentada “na consulta dos pagamentos que alegadamente foram feitos pela editora de Ferrante”. Anita Raja, por seu turno, é uma mulher de 63 anos, vive em Roma, é tradutora de alemão e trabalha habitualmente com a Edizione E/O, a editora dos livros de Ferrante.

Elena Ferrante escolheu o anonimato desde sempre. Em 1992 escreveu o romance de estreia “Um Estranho Amor” ao qual se seguiram “Os Dias do Abandono” e “A Filha Obscura”. Os três foram lançados num só volume em Portugal com o título “Crónicas do Mal de Amor” (2014). Numa entrevista (por email) que a autora concedeu ao Público esta afirma: “Escrever sabendo que não vou aparecer produz um espaço de absoluta liberdade criativa”. Como leitores, não duvidamos disso.

A polémica começa em 2013 quando o primeiro volume da tetralogia “A Amiga Genial” é traduzido para inglês e automaticamente se gera uma febre à volta de Ferrante. Desde essa altura Ferrante foi traduzida para 40 países e vendeu mais de cinco milhões de livros. E é aqui que Gatti supõe ter encontrado a verdadeira identidade de Ferrante. Segundo o jornalista que rastreou os pagamentos efetuados pela editora, estes vão ter a Anita Raja e, afima Gatti, os sinais exteriores de riqueza que a tradutora apresenta não se coadunam com a sua função reconhecidamente “mal paga”.

São muitos os problemas que esta investigação levantou: invasão de privacidade, desrespeito, voyeurismo, o direito dos leitores de conhecerem a identidade de um autor mas, acima de tudo, uma revelação inevitável visto o sucesso arrebatador que Ferrante atingiu. Anita Raja não reagiu à publicação de Gatti e se há quem não duvide da certeza do jornalista, outros há que acham impossível alguém escrever uma história destas sem a ter vivido realmente.

Muito se tem escrito sobre esta tetralogia e as opiniões divergem – entre a literatura e o folhetim o espectro é gigante e Elena Ferrante pode ser o que cada um de nós quiser que ela seja. Como leitora assídua vejo em Ferrante uma contadora de estórias exímia que entrelaça vidas, pensamentos, ações e sentimentos com um ritmo desconcertante. No entanto, não tem nada de metafísica, é tudo demasiado vivido e pouco questionado, como se não houvesse mais nada para além do mundo em que se desenrola a trama. Essa talvez tenha sido a intenção da autora e nada lhe podemos apontar se assim foi – folhetim ou novela, Elena Ferrante é uma escritora e é boa naquilo que faz.

Se um dia se provar que foi Anita Raja quem realmente escreveu estes livros, uma salva de palmas ela merece. Enquanto os li achei sempre que ninguém conseguiria inventar uma história assim se não a tivesse vivido (pelo menos em parte!), e se Anita Raja conseguiu criar um mundo tão complexo fora da sua experiência pessoal é realmente de louvar semelhante imaginação.

Giacomo Durzi, realizador italiano, está neste momento a filmar “Ferrante Fever” (http://www.vanityfair.com/hollywood/2017/03/ferrante-series-coming-to-hbo), um documentário que procura explicar o sucesso mundial de Elena Ferrante sem, no entanto, bisbilhotar sobre a verdadeira identidade da autora.

Saverio Constanzo, outro realizador italiano, está a fazer a adaptação da tetralogia de Ferrante para o pequeno ecrã numa série de quatro temporadas com oito episódios cada, e terá a chancela da HBO: http://www.vanityfair.com/hollywood/2017/03/ferrante-series-coming-to-hbo

A Amiga Genial

A narrativa começa e desenvolve-se num bairro de Nápoles e tem como personagens principais duas amigas, Elena Greco (Lenù) e Raffaella Cerullo (Lila). É Elena, já no decorrer dos seus 60 anos, que se sente instigada pelo desaparecimento de Lila a escrever a história das suas vidas. A sua amizade começa aos 6 anos e com alguns rompimentos momentâneos mantem-se até ao dia em que, passadas seis décadas, Lila desaparece sem deixar rasto. Pelo meio há muitas vidas que se ligam, entreligam e se afastam numa complexa teia de sentimentos e emoções que vão da alegria ao desespero e da amizade ao ódio como só as relações humanas o conseguem na sua magnificência. No fundo resume-se a isto – relações humanas descritas tão ao pormenor que chegam a provocar choque através da sua crueldade despida de artifícios. Uma verdade que extravasa das linhas no papel e que assume as mais variadas imperfeições humanas. Uma noção real da mesquinhez humana, da maldade, do amor e do conflito que é lidarmos uns com os outros ao longo da vida. A Amiga Genial conquistou-me por isto, “pelas sensações e vontades que não se encontram habitualmente na literatura”.

Excerto – A História da Menina Perdida

“Malgrado tudo, o amor revolvia-se dentro de mim com fúria, e só o facto de planear fazer mal a Nino já me repugnava. Por muito que hoje em dia escrevesse e fizesse palestras a torto e a direito sobre a autonomia feminina, não era capaz de passar sem o seu corpo, a sua voz, a sua inteligência. Foi terrível reconhecê-lo, mas continuava a querê-lo, amava-o mais do que às minhas próprias filhas. Perante a ideia de o prejudicar e de nunca mais o ver desfolhava-me dolorosamente, a mulher livre e culta perdia as pétalas, separava-se da mulher-mãe, e a mulher-mãe mantinha as distâncias da mulher-amante, e a mulher-amante da galdéria enfurecida, e todas elas pareciam que iam começar a esvoaçar em diferentes direções. Quanto mais me aproximava de Milão, mais me apercebia de que, depois de pôr Lila de parte, não era capaz de ser compacta a não ser tomando Nino como modelo. Era incapaz de ser eu o modelo de mim mesma. Sem ele, não tinha um núcleo a partir do qual me expandisse fora do bairro e pelo mundo, era um montão de lixo. Aportei, extenuada e aterrorizada, à casa de Mariarosa.”

Teresa Rolla

TeresaRolla.com