Os heróis estão mortos

Março 31, 2017/Blog

Hoje em dia não há heróis, não há ídolos.

No outro dia perguntaram-me quem eram os meus ídolos e eu só pensei em escritores, quase todos mortos.

Quem são os vossos ídolos? Começo a acreditar que são uma faixa da sociedade em vias de extinção.

Os ídolos eram pessoas integras que rasgavam com a mesmidade, que inovavam o pensamento dos demais, que enalteciam novas maneiras de olhar para o mundo, que inspiravam e que, normalmente, faziam o comum dos mortais achar que valia a pena continuar, um dia talvez conseguíssemos ver a luz.

Hoje estas pessoas não existem. Eu, pelo menos, não conheço nenhuma viva.

Para onde foram os músicos que nos inspiravam e os Duchamp desta vida que invertiam os sentidos e criavam novos? Para onde foram as manifestações que discutiam conceitos em vez de números? Para onde foram os políticos notáveis que plantavam ideias em vez de ideologias? Para onde foram os heróis que combatiam a guerra e proclamavam a paz acima de tudo? Para onde foi a arte da contra-cultura que tanto fez por nós no século passado? Para onde foi a comunicação sem interfaces, onde os humanos se mostravam como realmente são? Para onde foram todas estas coisas tão necessárias e o que é que temos em vez delas? Para onde foram os heróis?

O que hoje temos é a multiplicação infinita de soundbites que nos enchem a alma de lixo. Títulos chamativos de informação nula. Problemas criados em laboratório especialmente para nós. Ansiedades cozinhadas a gosto e sem glúten. Comunidades fechadas que lutam pela supremacia dos seus ideais, discussões vazias que só perpetuam o falar sem nada dizer e o vazio que se instala lentamente até ser só… vazio.

É urgente que os ídolos renasçam, que os ideais voltem a ser maiores que o lucro, que os humanos voltem a pensar pela própria cabeça e que o objetivo disto tudo seja mais do que a banalidade que nos tornamos.

O mundo sufocou os homens em economias de rodapé maiores que a vida. Roubou-nos os sonhos e alienou-nos do essencial. Já não há ideias, só coisas. Coisas que mais tarde ou mais cedo serão lixo mas que, mesmo assim, nós não deixamos de querer. O mundo levou-nos os heróis e fabricou réplicas consumíveis que enaltecemos por um dia. O mundo abandonou-nos, ou nós é que abandonamos o mundo quando deixamos de tentar ser melhores. A verdade é que os ídolos morreram e fomos nós que lhes fizemos o funeral.

Perdemos a consistência que os heróis nos transmitiam. Deixamo-nos ir na corrente, sempre com pressa de chegar não sabemos bem onde – só sabemos que não podemos parar, não podemos ficar de fora. Andamos a correr para tentar acompanhar o mundo e não percebemos que tudo isto está concebido para nos perdermos antes de chegarmos à meta. E não há heróis que nos digam isso. Infelizmente.

Teresa Rolla

TeresaRolla.com