Rayuela, de Julio Cortázar

Março 29, 2017/Review

Título: Rayuela, O Jogo do Mundo
Autor: Julio Cortázar
Editora: Cavalo de Ferro (2008)
Ano: 1963
Páginas: 631
Nota: 20/20

Julio Cortázar nasceu a 26 de agosto de 1914 na Embaixada da Argentina, em Bruxelas. É um escritor, tradutor e ensaísta argentino. Em 1918 a família regressou a Buenos Aires e foi aí que Cortázar veio a estudar. Em 1935 adquiriu habilitações como professor do ensino secundário e em 1944 conseguiu uma posição como professor de Literatura Francesa na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade Nacional de Cuyo, em Mendonza. Forçado a abandonar o ensino universitário por ter participado numa manifestação contra Juan Domingo Perón, Cortázar regressa a Buenos Aires em 1946 e passa a trabalhar como tradutor. Em 1951 o regime de Perón instala-se como uma ditadura e Cortázar parte para o exílio em Paris, de onde nunca chega a regressar. A partir de 1952 trabalha como tradutor na UNESCO e em 1953 aceita traduzir a obra completa de Edgar Allan Poe para a Universidade de Puerto Rico, sendo esta posteriormente reconhecida pela crítica como a melhor tradução já feita da obra do escritor. Cortázar publicou o seu primeiro poema “Los Reyes” em 1949 e em 1951 a sua primeira coletânea de contos com o título “Bestiário”. A publicação de contos continua com “Final de Juego” em 1956 e “Las Armas Secretas” em 1959. Um dos contos desta coletânea será adaptado ao cinema pelo realizador italiano Michelangelo Antonioni em 1966, com o título “Blow Up”. Em 1960 escreve o seu primeiro romance, “Los Premios”, mas é só em 1963 com “Rayuela”, a sua obra mais conhecida, que se consagra como romancista. Rayuela influenciou profundamente a literatura latino americana e conferiu a Cortázar um estilo literário completamente diferente dos demais. Cortázar faleceu a 12 de fevereiro de 1984, em Paris.

Rayuela – O Jogo do Mundo

Rayuela foi publicado pela primeira vez em junho de 1963, em Paris, e é uma das obras responsáveis pelo boom da literatura latino-americana. Não é um livro comum e, para demonstrá-lo claramente, decidimos replicar aqui a sua nota introdutória:

“À sua maneira, este livro é muitos livros, mas é sobretudo dois livros. O leitor fica desde já convidado a escolher uma das seguintes possibilidades:
O primeiro livro pode ler-se da mesma forma como habitualmente se leem os livros e termina no capítulo 56, onde se encontrarão três vistosas estrelas que correspondem à palavra FIM. Como tal, o leitor prescindirá de ler o que se segue sem grandes remorsos.
O segundo livro pode ler-se a partir do capítulo 73, bastando seguir a ordem indicada no final de cada capítulo. Em caso de confusão ou esquecimento, bastará consultar a seguinte lista: ” (Julio Cortázar)

Um livro que começa com um mapa e que nos obriga a escolher como o vamos ler é, logo à partida, um livro diferente. Mesmo que nesta altura ainda não tenhamos consciência do quão diferente Rayuela pode ser, a escolha que fizermos encarregar-se-á de o mostrar.

Rayuela é um romance que dificilmente se poderá circunscrever numa sinopse. Como Cortázar nos avisa: “este livro é muitos livros” e, mesmo que assim não fosse, o vasto universo psicológico das personagens e as complexas relações que estas estabelecem com certos conceitos torna qualquer tentativa de descrever o romance algo extremamente redutor.

O romance passa-se em vários universos distintos, como se de círculos concêntricos se tratassem, uns englobando os outros e outros cabendo nuns, sem nunca se definirem totalmente de forma isolada. No entanto, temos uma separação geográfica bem definida entre “o lado de lá” (por onde a história começa) e “o lado que cá” (onde a história acaba). Estes dois lados referem-se a Paris (o lado de lá) e a Buenos Aires (o lado de cá). Rayuela é o jogo “entre a terra e o céu” que Horácio Oliveira (o protagonista) vai desenhando entre estas duas cidades.

No lado de lá, Horácio vive em Paris numa existência solitária que partilha apenas com Maga e com os amigos do Clube da Serpente, intelectuais como ele que têm como passatempo preferido discutir os mais variados conceitos, sucumbindo muitas vezes a discussões metafísicas que Maga se vê aflita para acompanhar. Maga (cujo verdadeiro nome é Lúcia), é a protagonista feminina, dona de todas as contradições e de todas as pulsões que nos consomem enquanto estamos vivos. Maga e Horácio vivem numa balança constantemente desequilibrada entre a passionalidade e a racionalidade e mantêm uma relação que foge a todos os parâmetros e estereótipos – uma relação que os encontra mesmo quando eles se escondem. E talvez não seja por acaso que uma das formas de ler o livro começa (e acaba) com Horácio à procura de Maga pelas ruas de Paris.

Andávamos sem nos procurarmos, mas sabendo que andávamos para nos encontrarmos.” (p.17)

No lado de cá, a ação desenrola-se na Argentina e novas personagens adquirem importância. Entre elas está Manolo Traveler, amigo de infância de Horácio que não deixa de ficar apreensivo quando lhe dizem que este está de regresso ao país. Traveler é casado com Talita e gozam de um casamento estável. Quando Traveler e Talita dão as boas vindas a Horácio este, por momentos, confundo Talita com Maga. Esta confusão suceder-se-á várias vezes até que Horácio começa a ter noção da gravidade da situação. Entretanto, por diversas circunstâncias, acabam os três a trabalhar juntos num hospital psiquiátrico. São várias as personagens que compõem este lado da história, mas é Horácio que lhe vai pôr um fim.

Rayuela é, como o próprio nome indica, um jogo. Um jogo de realidades subjetivas, de encontros, de desencontros, de idiossincrasias, de metáforas, de sonhos, de ciúmes, de morte e de amor. Rayuela é o jogo da vida que todos os dias jogamos quando acordamos. É a crua realidade da existência humana que Cortázar descreve como ninguém. Rayuela ajuda-nos a perceber o caos que é o mundo no qual estamos mergulhados, ajuda-nos a aceitar a incerteza e a complexidade de todas as coisas mas, acima de tudo, ensina-nos a dar valor aos pormenores que, normalmente, são maiores do que nós.

Entre a realidade crua e a fantasia de mundos possíveis Cortázar escreveu o meu romance preferido. Cortázar conseguiu escrever o que as palavras não contam e o que a realidade esconde, conseguiu criar um mundo de sentido na falta de sentido que é estar vivo. Cortázar é um génio das palavras e das ideias e Rayuela é o seu legado mais valioso que, felizmente, está ao nosso alcance.

Teresa Rolla

TeresaRolla.com