Tony Judt: A privatização do Estado

Março 9, 2017/Excerto

“Ao eviscerarmos o Estado das suas responsabilidades e capacidades, diminuímos o seu estatuto público. O resultado são «comunidades fechadas» em todos os sentidos do termo: subsecções da sociedade que gostam de se julgar funcionalmente independentes da colectividade e dos seus servos públicos.

Este processo foi bem descrito por um dos seus maiores praticantes modernos: Margaret Tatcher terá declarado que «a sociedade não existe. Existem homens e mulheres e famílias». Mas se a sociedade não existe, se só existem indivíduos e o «Estado mínimo» – que supervisiona de longe atividades nas quais não participa – o que nos vai unir? Já aceitamos a existência de forças policiais privadas, correios privados, empresas privadas que aprovisionam o Estado em tempos de guerra e muito mais. «Privatizámos» precisamente as responsabilidades que o Estado moderno assumiu laboriosamente no século XIX e no princípio do século XX.

O que vai então servir de tampão ente os cidadãos e o Estado? É que o Estado não vai definhar. Mesmo que lhe tiremos todos os serviços, vai continuar connosco – nem que seja apenas como força de controlo e repressão. Por conseguinte, entre o Estado e os indivíduos não vão existir instituições nem fidelidades intermédias: não vai ficar nada da teia de serviços e obrigações recíprocos que unem os cidadãos através do espaço público que ocupam coletivamente. Vão ficar apenas pessoas e empresas privadas que competem para sequestrar o Estado em seu benefício.

O ímpeto da construção do Estado tal como o conhecemos derivou explicitamente da compreensão de que nenhum colectivo consegue sobreviver muito tempo sem desígnios partilhados nem instituições comuns. A noção de que o benefício privado podia ser multiplicado para benefício do público já era palpavelmente absurda para os críticos liberais do capitalismo industrial nascente. Segundo John Stuart Mill, «a ideia de uma sociedade exclusivamente unida pelas relações e sentimentos que decorrem dos interesses pecuniários é essencialmente repugnante».”

[Tony Judt, in Quando os Factos Mudam]

TeresaRolla.com