Roberto Bolaño: Coincidências

Março 7, 2017/Excerto

“Não se trata de acreditar ou não acreditar nas coincidências. O mundo inteiro é uma coincidência. Tive um amigo que me dizia que eu estava enganado ao pensar desta maneira. O meu amigo dizia que para alguém que viaja num comboio o mundo não é uma coincidência, mesmo que o comboio esteja a atravessar territórios desconhecidos para o viajante, territórios que o viajante nunca mais irá voltar a ver na sua vida. Também não é uma coincidência para o que se levanta às seis da manhã morto de sono para ir para o trabalho. Para aquele que não tem outro remédio senão levantar-se e acrescentar mais dor à dor que já tem acumulada. A dor acumula-se dizia o meu amigo, isso é um facto, e quanto maior for a dor menor a coincidência.
– Como se a coincidência fosse um luxo – perguntou Morini.
– A coincidência não é um luxo, é a outra face do destino e também algo mais – disse Johns.
– Mais o quê? – perguntou Morini.
– Algo que escapava ao meu amigo por uma razão muito simples e compreensível. O meu amigo (talvez seja uma presunção da minha parte chamar-lhe ainda assim) acreditava na Humanidade, portanto, acreditava na ordem, na ordem da pintura e na ordem das palavras, pois a pintura não se faz com outra coisa. Acreditava na redenção. No fundo até é possível que acreditasse no progresso. A coincidência, pelo contrário, é a liberdade total a que estamos condenados pela nossa própria natureza. A coincidência não obedece a leis e se lhes obedece nós desconhecemo-las. A coincidência, se me permite a comparação, é como Deus que se manifesta em cada segundo no nosso planeta. Um Deus incompreensível com gestos incompreensíveis dirigidos às suas criaturas incompreensíveis. Nesse furacão, nessa implosão óssea, realiza-se a comunhão. A comunhão da coincidência com os seus rastos e a comunhão dos seus rastos connosco.”

[Roberto Bolaño, in 2666]

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