Michel Houellebecq: O “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley

Fevereiro 17, 2017/Excerto

“Sempre me impressionou a justeza extraordinária das predições feitas por Aldous Huxley no Admirável Mundo Novo. Quando pensamos que esse livro foi escrito em 1932, é alucinante. Desde então, a sociedade ocidental tentou aproximar-se desse modelo. Controlo cada vez mais preciso da procriação, que acabará por levar mais cedo ou mais tarde à sua completa dissociação do sexo, e à reprodução da espécie humana em laboratório em condições de segurança e de fiabilidade genética totais. Desaparecimento por conseguinte das relações familiares, da noção de paternidade e de filiação. Eliminação, graças aos progressos farmacêuticos, da distinção entre as idades da vida.

No mundo descrito por Huxley os homens de sessenta anos têm as mesmas atividades, a mesma aparência física, os mesmos desejos que um jovem de vinte anos. Depois, quando deixa de ser possível lutar contra o envelhecimento, desaparece-se por eutanásia livremente consentida; muito discretamente, muito depressa, sem dramas. A sociedade descrita pelo Brave New World é uma sociedade feliz, da qual desapareceram a tragédia e os sentimentos extremos. A liberdade sexual é total, já nada há que constitua obstáculo à plenitude e ao prazer. Restam pequenos momentos de depressão, de tristeza e de dúvida; mas são facilmente tratados por via medicamentosa, a química dos antidepressivos e dos ansiolíticos fez progressos consideráveis. É exatamente o mundo a que hoje aspiramos, o mundo no qual, hoje, desejaríamos viver.

Em geral o universo de Huxley é descrito como um pesadelo totalitário, que se tenta fazer passar o livro por uma denúncia virulenta; é uma hipocrisia pura e simples. Em todos os pontos – controlo genético, liberdade sexual, luta contra o envelhecimento, civilização dos tempos livres, o Brave New World é para nós um paraíso, é de facto exatamente o mundo que nos esforçamos, até ao momento sem êxito, por alcançar.

Há somente uma coisa que hoje fere um pouco o nosso sistema de valores igualitário – ou mais precisamente meritocrático: é a divisão da sociedade em castas, afetadas cada uma delas a trabalhos diferentes segundo a sua natureza genética. Mas esse é justamente o único ponto acerca do qual Huxley se revelou mau profeta: é esse justamente o único ponto que, com o desenvolvimento da robotização e do maquinismo, se tornou mais ou menos inútil.

Aldous Huxley é sem sombra de dúvida um péssimo escritor, as suas frases são pesadas e sem graça, as suas personagens são insípidas e mecânicas. Mas teve a intuição, fundamental, de que a evolução das sociedades humanas era havia séculos, e seria cada vez mais, conduzida exclusivamente pela evolução científica e tecnológica. Pode ser quanto ao resto deficiente em matéria de subtileza, de psicologia, de estilo; tudo isso pesa pouco quando temos em conta a justeza da sua intuição de partida. E compreendeu, foi o primeiro dos escritores a compreendê-lo, incluindo até os autores de ficção científica, que seria agora a biologia como antes a física a desempenhar um papel de motor.

Huxley pertencia a uma grande família de biólogos ingleses. O seu avô era amigo de Darwin, escreveu muito em defesa das teses evolucionistas. O seu pai e o seu irmão Julian eram igualmente biólogos de renome. Estamos diante de uma tradição inglesa, de intelectuais pragmáticos, liberais e céticos; muito diferente do Século das Luzes em França, muito mais baseada na observação, no método experimental. Durante toda a sua juventude, Huxley teve ocasião de ver os economistas, os juristas, e sobretudo os cientistas que o seu pai convidava e recebia em casa. Entre os escritores da sua geração, era decerto o único capaz de pressentir os progressos que a biologia iria fazer.

Alguns anos mais tarde, Aldous Huxley viria a ser uma caução teórica maior da experiência hippie. Tinha sido sempre partidário de uma inteira liberdade sexual, e desempenhado um papel de pioneiro na utilização das drogas psicadélicas. Todos os fundadores de Esalen o conheciam, e tinham sido influenciados pelo seu pensamento. A New Age, mais tarde, retomaria por sua conta os temas fundadores de Esalen. Aldous Huxley, na realidade, é um dos pensadores mais influentes do século.

Huxley publicou A Ilha em 1962, foi o seu último livro. Situa a ação numa ilha tropical paradisíaca – a vegetação e a paisagem inspiram-se provavelmente no Sri Lanka. Nessa ilha desenvolveu-se uma civilização original, isolada das grandes correntes comerciais do século XX, ao mesmo tempo muito avançada no plano tecnológico e respeitadora da Natureza: pacificada, completamente liberta das neuroses familiares e das inibições judeo-cristãs. A nudez é natural na ilha; a volúpia e o amor praticam-se livremente. Este livro medíocre, mas de leitura fácil, desempenhou um papel enorme sobre os hippies e, através deles, sobre os adeptos da New Age.

A mutação metafísica que deu origem ao materialismo e à ciência moderna teve duas grandes consequências: o racionalismo e o individualismo. O erro de Huxley foi ter avaliado mal a relação de forças entre estas duas consequências. Especificamente, o seu erro foi ter subestimado o aumento do individualismo produzido por uma consciência intensificada da morte. Do individualismo nascem a liberdade, a sensação do eu, a necessidade de distinção e de superioridade sobre os outros.

Numa sociedade racional como a descrita pelo Admirável Mundo Novo, a luta pode ser atenuada. A competição económica, metáfora da apropriação do espaço, deixa de ter razão de ser numa sociedade rica, onde os fluxos económicos foram dominados. A competição sexual, metáfora em termos de procriação da apropriação do tempo, deixa de ter razão de ser numa sociedade na qual a dissociação sexo-procriação foi perfeitamente realizada; mas Huxley esquece-se de ter em conta o individualismo. Não soube compreender que o sexo, uma vez dissociado da procriação, subsiste menos como princípio de prazer do que como princípio de diferenciação narcísica; o mesmo se passa com o desejo das riquezas.

A mutação metafísica operada pela ciência moderna traz na sua esteira a individuação, a vaidade, o ódio e o desejo. Em si o desejo – ao contrário do prazer – é fonte de sofrimento, de ódio e de infelicidade. Isso, todos os filósofos, não só os budistas, não só os cristãos, mas todos os filósofos dignos desse nome – o souberam e ensinaram. A solução dos utopistas – de Platão a Huxley, passando por Fourier – consiste em extinguir o desejo e os sofrimentos a ele associados por meio da organização da satisfação imediata.

Em contrapartida, a sociedade erótico-publicitária em que vivemos ocupa-se a organizar o desejo em proporções inéditas, ao mesmo tempo que mantém a satisfação no domínio da esfera privada. Para que a sociedade funcione, para que a competição continue, é preciso que o desejo cresça, alastre e devore a vida dos homens. Há corretivos, pequenos corretivos humanistas… Enfim, coisas que permitem esquecer a morte. No Admirável Mundo Novo são os ansiolíticos e os antidepressivos; n’AIlha é sobretudo a meditação, as drogas psicadélicas, alguns vagos elementos de religiosidade hindu. Na prática, hoje, as pessoas tentam misturar um bocadinho as suas coisas.

[Michel Houellebecq, in As Partículas Elementares]

TeresaRolla.com