Zygmunt Bauman: Entre a Civilidade e a Barbárie

Janeiro 26, 2017/Excerto/5 min. a ler

Para a modernidade viver sem coerção é uma possibilidade comparável à que o peixe tem fora de água.

A instauração da ordem torna manifesta a diferença antes desapercebida e cria diferença onde a não havia; distribui o conjunto dos objetos a ordenar entre os que se adequam ao quadro da ordem e os que não se lhe adaptam. Os últimos têm de ser coagidos a transformar-se ou a mudar de lugar.

Uma vez que a atividade ordenadora nunca chega a alcançar uma ordem única, una e inacabada, e não pode também impedir-se de engendrar lixo ao lado da limpeza, horror ao lado da beleza, ambivalência ao lado da clareza e zonas de confusão ao lado das bem ordenadas, é pouco provável que a reserva dos desafios rejuvenescedores não venha um dia a esgotar-se.

A modernidade autolegitima-se enquanto «processo civilizador» – um processo que avança tornando suave o áspero, benigno o cruel, requintado o tosco. Todavia, como acontece na maior parte dos casos de legitimação, este quadro corresponde mais a um anúncio publicitário do que a uma descrição da realidade. De certo modo, esconde tanto como o que revela. E o que esconde é que só através da coerção que exercem as forças da modernidade mantêm em respeito a coerção que juraram aniquilar, e que o processo de civilização de uns é a incapacitação forçada de outros. O processo de civilização não consiste no arrancar pela raiz, mas na redistribuição da violência.

Graças ao monopólio detido pelo Estado, a coerção cinde-se em duas espécies marcadamente diferentes, caracterizadas respetivamente como legítima e ilegítima, necessária e gratuita, desejável e indesejável, útil e nociva. Na sua aparência, as duas características distintas nada têm que as diferencie uma da outra exceto a justificação – sempre partidária – concedida a uma, mas recusada a outra. Na realidade, receberam hoje nomes diferentes: uma das categorias de coerção é dita «imposição da lei e da ordem», enquanto a horrível designação de «violência» se reserva exclusivamente à outra. O que esta distinção esconde é, todavia, o facto de a «violência» condenada consistir também numa certa instauração da ordem, na imposição de certas leis.

Se a ordem força as coisas a entrarem na regularidade, a «violência» representa a coerção irregular, a força que mina a regularidade aqui e agora, essa regularidade que é sinónimo de ordem.
A distinção entre a manutenção da ordem e a violência é alvo de uma contestação que lhe é inerente. Trata-se de uma linha que nunca pode ser traçada definitivamente: as barreiras fronteiriças só se mantêm eficazes enquanto há homens pesadamente armados a guardá-las.

A atividade ordenadora, o maior passatempo das instituições modernas, consiste principalmente na imposição da monotonia, da repetição e da determinação – tudo o que resista a esta imposição é a selvajaria de além-fronteiras, um território hostil ainda por conquistar ou, pelo menos, a pacificar. A diferença entre o espaço controlado e o incontrolado é a diferença entre a civilidade e a barbárie.

Nos domínios da barbárie, não vigoram as leis da civilidade. São um território de luta incessante, em que tudo é permitido contanto que funcione – e os bárbaros, sendo por definição violentos, são objeto legítimo de violência. A civilidade a quem é civil – aos bárbaros, a barbárie.

Para os antigos que inventaram o termo para designar todos os não-gregos (é mais tarde, os que ficavam fora da alçada do Direito Romano), os bárbaros só suscitavam medo quando se aproximavam demasiado e se instalavam ante portas, mas não eram objetos de ação missionária nem de vigilância. A modernidade, desde o início, historicizou e interiorizou o estatuto dos bárbaros. A barbárie não era agora tão-só uma forma de vida diferente, mas uma forma de vida ultrapassada, votada à extinção: os bárbaros eram fósseis vivos, ou seres que decididamente tinham sobrevivido à sua época e seria conveniente que desaparecessem da presente o mais rapidamente possível.

Os bárbaros foram um instrumento de importância maior no moderno processo de «implantação do medo» (Reemtsma), um afeto que a modernidade se mostrava particularmente inclinada a propagar uma vez que conferia um carácter de urgência, e até mesmo um aparente sentido, às transgressões sempre novas que a «modernização» visava consumar. Do mesmo modo, serviam como um instrumento de estratificação e de reprodução da hegemonia cultural.

Uma componente importante de «barbárie» fazia ainda parte da descrição oficial da identidade do pobre indolente, imprevidente e irresponsável, da mulher irrefletida e frívola, das minorias culturais e/ou étnicas difíceis de integrar e resistentes à assimilação e de quaisquer outras categorias que fossem consideradas demasiado turbulentas e incontroláveis que convinha, para fins de segurança, manter no seu lugar por meio de medidas correntes de coerção quotidiana.
Bem vistas as coisas, e talvez originariamente, houve sempre um selvagem aprisionado no íntimo de cada ser humano civilizado. Adivinhava-se «o bárbaro» adormecido no interior de cada homem moderno, sensato e saudável, e receava-se que ele despertasse e desacorrentasse a favor do primeiro momento de desatenção. Combater, acorrentar e manter acorrentado o «selvagem interior» era presumivelmente a tarefa mais premente e mais anunciada pela imprensa da primeira linha de batalha da sempre beligerante civilização da modernidade.

Ao longo da história moderna foi para servirem nessa linha de batalha que se inventaram as armas mais engenhosas, ao mesmo tempo que todos e cada um dos civilizados era mobilizado como soldado para o mesmo combate ininterrupto. Cada corpo moderno era uma prisão, cada homem moderno um guarda prisional vigiando o perigoso psicopata que trazia dentro de si, e o dever dos guardas era manterem as portas gradeadas bem fechadas e os alarmes a postos. A vigilância nunca parecia ser suficiente, enquanto se farejavam as malfeitorias do «selvagem interior» em cada paixão, cada explosão emocional, cada quebra da etiqueta, cada e expressão afetiva.

O espetro do bárbaro no íntimo de todos nós era a mais potente das armas utilizadas nas batalhas modernas em vista de impor a ordem refletida e uma rede de convenções de rotina ao mundo turbulento e contingente da vida quotidiana, e a ubiquidade do bárbaro revelou-se de extrema utilidade, acrescentando às grandes prisões administradas pelo Estado as incontáveis prisões mais pequenas, produzidas pelos indivíduos em regime de autoconstrução.

Em suma, podemos dizer que a civilidade – essa cruzada cultural das elites modernas e essa campanha armada do Estado moderno – estabeleceu, por assim dizer, as regras do seu próprio jogo, reservando para si o direito de decidir quem era o bárbaro. As guerras ortodoxas e passadas de moda «entre nós e eles» são travadas e continuarão a ser travadas durante algum tempo mais sob as bandeiras da santa cruzada da civilização contra a barbárie, da paz contra a violência.

Hoje é o «território soberano» pacificado da civilização que continua a criar e a recriar alvos que mais tarde serão estigmatizados como violentos e se tornarão assim alvos legítimos de missões de pacificação. Com os seus arsenais superlotados e os seus milhares de efetivos no setor da investigação e desenvolvimento da produção de armamentos, ávidos de porem à prova da «ação» as suas últimas invenções, é hoje o mundo civilizado que alimenta constantemente a abundância da «barbárie exterior».

A questão está, pois, em saber em que medida a parte civilizada do mundo será capaz de exercer uma influência «civilizadora», pacificadora sobre a periferia «menos civilizada» ou «subcivilizada», transbordante de violência, minada por múltiplas guerras tribais intermináveis e sempre disposta a recorrer com entusiasmo aos massacres e ao reino do terror.

Todavia, poderá dizer-se que a pressão política e sobretudo económica que os governos do «centro civilizado» exercem para promover regimes democráticos e o respeito pelos direitos humanos, embora sendo menos radical e de efeitos mais lentos, não deixará de ser um poderoso meio de influência civilizadora e de eliminação progressiva de formas bárbaras de violência. Assim seria, com efeito, não fora o facto de os porta-vozes governamentais não constituírem o único «interface» entre as partes «civilizadas» e as partes «menos civilizadas» do globo – e nem sequer, na sequência da dissolução dos grandes blocos e da extrema atenuação do interesse dos governos pela política global, o interface mais importante. Se na época dos grandes blocos era a competição política e militar entre os centros hostis que saturava a periferia com armas de destruição maciça, o mesmo efeito é hoje produzido, e possivelmente num grau mais elevado do que antes, pela competição desenfreada entre os produtores e negociantes de armas não nacionais, auxiliados e sustentados por vezes por políticos que pretendem ganhar votos «salvando postos de trabalho», mas cujas atividades são na maior parte dos casos «desreguladas» – o que significa desembaraçadas da supervisão apertada dos governos e em condições de se encaminharem para regiões mais prometedoras de lucro.

A combinação de animosidades pré-modernas (é fundamentalmente a incapacidade pré-moderna de coabitação pacífica com a diferença) e das mais modernas armas e técnicas de destruição maciça faz mais do que «compensar» o possível impacto «civilizador» das exortações democráticas e da promoção dos direitos humanos.

«O potencial de violência, cujo exílio perpétuo fora objeto de promessas e até mesmo de declarações regressa ao centro a grande velocidade. Mas sob que forma?» Caygill

[Zygmunt Bauman, in A Vida Fragmentada, Relógio d´Água Editores]

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