Sándor Márai: É preciso amar com coragem

Janeiro 7, 2017/Excerto

Título: A Herança de Eszter
Autor: Sándor Márai
Editora: Dom Quixote (2006)
Ano: 1939
Páginas: 152
Nota: 18/20

“Naturalmente, em termos legais não tenho direito a exigir-te nada. Mas há outro tipo de leis. Talvez não saibas mas chegou o momento de te inteirares de que a par das leis morais, há outras igualmente poderosas, igualmente válidas…
As pessoas, em geral, não suportam essa consciência. Tens de saber que as pessoas não se relacionam só com palavras, juramentos e promessas, tal como não são os sentimentos e as simpatias que decidem as verdadeiras relações. Há mais qualquer coisa, uma espécie de lei mais dura e severa que estabelece que esta ou aquela pessoa se ligue a outrem… Como dois cúmplices. Essa lei estabeleceu que eu me ligasse a ti. Eu conhecia essa lei. Há vinte anos, soube-o logo, mal te conheci. Agora já não faz sentido mostrar-me modesto: eu sei Eszter, que de, de nós os dois, sou eu quem tem o carácter mais forte. Claro, não é ‘carácter’ no sentido em que falam os tratados de ética. Mas sou eu, o vacilante, o infiel, o fugitivo, sou eu quem conseguiu ficar íntima e empenhadamente fiel a essa lei, que não consta dos livros e dos tratados de direito, mesmo se essa é a lei verdadeira. Ouve-me, a lei do mundo dita que se deve terminar o que se começou. Não é grande motivo de alegria. Nada chega a tempo, nunca a vida dá nada quando precisamos. Sofremos longamente por essa desordem, por esse atraso. Julgamos que alguém brinca connosco. Mas, um dia, percebemos que uma ordem maravilhosa e perfeita habitava em tudo… que duas pessoas não podem encontrar-se um dia antes, mas só quando estiverem maduras para esse encontro. Maduras não segundo as suas inclinações ou preferências mas interiormente, obedecendo à lei irrevogável da astronomia, tal como se encontram os corpos celestes na imensidão do espaço e do tempo, com rigorosa exatidão, nesse segundo que é o segundo de ambos, na sucessão dos milénios e da infinitude espacial. Não acredito em encontros fortuitos. Sou homem e conheci muitas mulheres… desculpa, mas preciso de falar disto… conheci mulheres belas e apaixonadas, conheci algumas ardentes, como se fossem o demónio, conheci heroínas que conseguiam arrastar-se na neve, na Sibéria, atrás de um homem, conheci mulheres notáveis, que sabiam ajudar e que por breves instantes conseguiam dissolver a ilimitada solidão da vida. Sim, conheci todas essas… O que fazer – disse levantando a voz -, e o que podes tu fazer com esta confissão tardia, que na nossa idade já não tem conteúdo nem valor moral? Vês, Eszter, o reencontro é quase mais excitante e misterioso do que o primeiro encontro… há muito que sei isso. Reencontrar alguém que amámos não é como voltar ao ‘lugar do crime’, atraídos por uma necessidade irresistível, como se diz nos romances policiais? Eu só te amei a ti na vida, não com severas exigências e nem lá muito coerentes, sei…Tu não querias, na verdade, esse amor. Não te defendas. Não basta amar alguém. É preciso amar com coragem. É preciso amar de tal modo que nenhum ladrão, ou má intenção, ou lei, lei divina ou deste mundo, possa seja o que for contra esse amor. Não nos amámos com coragem… foi esse o mal. E a culpa é tua, porque a coragem dos homens é ridícula em matéria de amor. É trabalho vosso o amor, das mulheres… É nisso que são grandes. Foi aí que falhaste. Tu cometeste o erro mais grave que uma mulher pode cometer, ofendeste-te, fugiste. Queria que soubesses que nada pode terminar de forma arbitrária ou interromper-se antes do tempo, entre as pessoas… não é possível. Estás ligada a mim, inclusive agora, quando o tempo e a distância já destruíram tudo o que um dia, juntos construímos. Compreendes agora? Tu és responsável por tudo o que me sucedeu na vida, tal como eu sou responsável por ti e pelas tuas desventuras… à minha maneira… sim, à maneira de um homem. O tempo tudo queima em nós, todas as mentiras. É esta a realidade que permanece. Estás ligada a mim, fugiste… estás ligada a mim mesmo sabendo que não mudei, e sou o de antes, perigoso e imprevisível, não o podes negar… Podes acusar-me, e no entanto sabes que tu és a única pessoa em frente à qual estou inocente. ”

[Sándor Márai, in A herança de Eszter]

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