Yuval Harari: Somos feitos de mitos e mexericos

Dezembro 4, 2016/Excerto

Todos os animais têm uma forma de linguagem. Até os insetos, as abelhas e as formigas sabem como comunicar de formas sofisticadas, transmitindo informações quanto à localização de alimentos e, muitos animais, incluindo todos os macacos e espécies de símios, têm linguagens vocálicas.

A nossa linguagem evoluiu como forma de partilhar informações sobre o mundo. No entanto, a informação mais importante que precisava de ser transmitida era sobre seres humanos, não sobre os leões ou os bisontes. A nossa linguagem evoluiu para nos permitir tagarelar. De acordo com esta teoria, o Homo sapiens é, antes de mais, um animal social. A cooperação social é a nossa chave para a sobrevivência e a reprodução. Não basta que homens e mulheres individuais conheçam o paradeiro de leões e bisontes. É muito mais importante para eles saber quem, no seu bando, odeia quem, quem está a dormir com quem, quem é honesto e quem é trapaceiro.

A quantidade de informação que precisamos de obter e organizar para seguir as relações, em constante mutação, de algumas dúzias de indivíduos é estonteante. (Num bando de 50 indivíduos, existem 1225 relações de um para um e inúmeras mais combinações sociais complexas.) As novas capacidades linguísticas que os modernos sapiens adquiriram, há cerca de 70 milénios, permitiram-lhes tagarelar durante horas sem fim. Mesmo hoje, a grande maioria da comunicação humana – seja sob a forma de e-mails, telefonemas ou artigos de jornais – é composta por mexericos. É tão natural para nós que parece que a nossa linguagem evoluiu precisamente para isso.

No entanto, o aspeto verdadeiramente único da nossa linguagem não é a sua capacidade de transmitir informações sobre homens e leões. É, antes, a sua capacidade de transmitir informação sobre coisas que não existem de todo. Tanto quanto sabemos, apenas os sapiens conseguem falar sobre entidades que nunca viram, tocaram ou cheiraram.

Esta capacidade de falar sobre coisas ficcionais é o aspecto mais singular da linguagem sapiens. É relativamente fácil concordar que apenas o Homo sapiens consegue falar sobre coisas que não existem realmente e acreditar em seis coisas impossíveis antes do pequeno-almoço. Jamais conseguiria convencer um macaco a dar-lhe uma banana prometendo-lhe um fornecimento ilimitado de bananas depois da morte, no Céu dos macacos. Porque é isto importante? Afinal de contas, a ficção pode ser perigosamente enganadora e perturbadora.

A ficção permitiu-nos não só imaginar coisas, como também fazê-lo coletivamente. Podemos tecer mitos comuns como a história da criação, os mitos do tempo dos sonhos dos aborígenes australianos e os mitos nacionalistas dos estados modernos. Tais mitos conferem ao sapiens uma capacidade sem precedentes para cooperar, de forma flexível, em grupos com grande número de indivíduos. Os sapiens conseguem cooperar de formas extremamente flexíveis com uma quantidade ilimitada de estranhos. É por isso que os sapiens dominam o mundo, enquanto as formigas comem os nossos restos e os chimpanzés estão trancados em jardins zoológicos e nos laboratórios de investigação.

A tagarelice ajudou o Homo sapiens a formar bandos maiores e mais estáveis. No entanto, até a tagarelice tem os seus limites. Estudos sociológicos revelaram que o tamanho “natural” máximo de um grupo unido pelos mexericos comporta cerca de 150 indivíduos. A maior parte das pessoas não consegue conhecer intimamente nem falar eficazmente a mais do que cerca de 150 seres humanos.

Hoje em dia existe um limiar crítico nas organizações humanas mais ou menos por volta deste número mágico. Abaixo deste limiar, comunidades, negócios, redes sociais e unidades militares conseguem manter-se tendo por base, sobretudo, o conhecimento íntimo e a troca de mexericos. No entanto, se o limiar de 150 indivíduos for ultrapassado as coisas deixam de poder funcionar assim.

Como foi que o Homo sapiens conseguiu ultrapassar este limiar crítico, acabando por fundar cidades com dezenas de centenas de milhões? O segredo reside, provavelmente, no surgimento da ficção. Um grande número de estranhos consegue cooperar com êxito graças à crença em mitos comuns.

Qualquer cooperação humana em larga escala – seja um Estado moderno, uma Igreja medieval, uma cidade antiga ou uma tribo arcaica – está enraizada em mitos comuns, que existem apenas na imaginação coletiva das pessoas. No entanto, nenhuma destas coisas existe fora das histórias que as pessoas inventam e contam entre si. Não há deuses no Universo, não há nações, não há dinheiro e não há justiça fora da imaginação coletiva dos seres humanos.

[Yuval Harari, in Sapiens – História Breve da Humanidade]

TeresaRolla.com