Yuval Harari: Do Comunismo ao Nazismo, os paradoxos das religiões políticas

Novembro 26, 2016/Excerto

“Os últimos 300 anos foram, muitas vezes, retratados como uma época de crescente secularismo, durante a qual as religiões foram perdendo, cada vez mais, importância.

A Era Moderna testemunhou a ascensão de várias novas religiões das leis naturais, como o liberalismo, o comunismo, o capitalismo, o nacionalismo e o nazismo. Estas doutrinas não gostam de ser chamadas religiões e apelidam-se a si mesmas de ideologias. No entanto, trata-se apenas de um exercício semântico. Se a religião é um sistema de normas e valores humanos que tem por base a crença numa ordem sobre-humana, então o comunismo soviético não era menos religioso que o Islão. O Islão é, claro, diferente do comunismo, porque vê a ordem sobre-humana que governa o mundo como um édito de um Deus criador omnipotente, ao passo que o comunismo soviético não acreditava em deuses.

Como os budistas, os comunistas acreditam numa ordem natural sobre-humana e em leis imutáveis que deviam guiar as ações humanas. Enquanto os budistas acreditam que a lei da Natureza foi descoberta por Siddhartha Gautama, os comunistas creem que a lei da natureza foi descoberta por Karl Marx, Friedrich Engels e Vladimir Ilych Lenine. As semelhanças não terminam aqui. A par das outras religiões, também o comunismo tem os seus textos sagrados e livros proféticos, como o Das Kapital, de Marx, que previam que a História terminaria em breve com a inevitável vitória do proletariado.

O comunismo tinha mártires, guerras santas e heresias, como o trotskismo. O comunismo soviético era uma religião fanática e missionária. Um comunista devoto não podia ser cristão ou budista, e esperava-se que difundisse o evangelho de Marx e Lenine mesmo com o risco da própria vida.

Alguns leitores podem sentir-se muito desconfortáveis com esta linha de raciocínio. Se o faz sentir melhor, pode continuar a chamar ao comunismo uma ideologia e não uma religião. Por outro lado, devemos ter em conta que a crença em Deus persiste em muitas ideologias modernas e que algumas delas, nomeadamente o liberalismo, não fazem sentido sem esta crença.

As religiões teístas centram-se na adoração dos deuses (daí chamarem-se «teístas», da palavra grega para «deus», theos). As religiões humanistas adoram a humanidade ou, para ser mais correto, o Homo sapiens. O humanismo é a crença de que o Homo sapiens tem uma natureza única e sagrada, que é fundamentalmente diferente da natureza de todos os outros animais e de todos os demais fenómenos. Os humanistas acreditam que a natureza única do Homo sapiens é a coisa mais importante do mundo e que esta determina o significado de tudo o que acontece no Universo. O bem supremo é o bem do Homo sapiens. O resto do mundo e todos os outros seres existem apenas para benefício da sua espécie.

Todos os humanistas adoram a humanidade, mas não concordam na sua definição. O humanismo dividiu-se em três seitas rivais, que lutam entre si pela definição exata de «humanidade», tal como as seitas cristãs rivais combatiam pela definição exata de Deus.

Hoje em dia, a seita humanista mais importante é o humanismo liberal, que acredita que a «humanidade» é uma qualidade dos seres humanos individuais e que, como tal, a liberdade do indivíduo é sacrossanta. Os principais mandamentos do humanismo liberal têm como objetivo proteger a liberdade da voz interior individual contra a intrusão ou o Mal. Estes mandamentos são, coletivamente, conhecidos como «direitos humanos».

Embora o humanismo liberal santifique os seres humanos, não nega a existência de Deus e baseia-se, na verdade, em crenças monoteístas. A crença liberal na natureza livre e sagrada de cada indivíduo é um legado direto da tradicional crença cristã nas almas individuais, livres e eternas.

Outra seita importante é o humanismo socialista. Os socialistas acreditam que a «humanidade» é coletiva e não individualista. Não consideram sagrada a voz interior de cada indivíduo, mas a espécie Homo sapiens como um todo. Enquanto o humanismo liberal procura tanta liberdade quanto possível para os seres humanos individuais, o humanismo socialista procura a igualdade entre todos os seres humanos. De acordo com os socialistas, a desigualdade é a pior blasfémia contra a santidade da humanidade, porque privilegia as qualidades periféricas dos seres humanos e não a sua essência universal.

Como o humanismo liberal, o liberalismo socialista assenta em fundações monoteístas. A ideia de que todos os seres humanos são iguais é uma versão rejuvenescida da crença monoteísta de que todas as almas são iguais perante Deus.

A única seita humanista que conseguiu, de facto, libertar-se do monoteísmo tradicional foi o humanismo evolutivo, cujos representantes mais famosos são os nazis. O que distinguia os nazis das restantes seitas humanistas era uma diferente definição de «humanidade», uma definição profundamente influenciada pela teoria da evolução. Ao contrário de outros humanistas, os nazis acreditavam que a humanidade não é algo universal e eterno, mas antes uma espécie mutável que pode evoluir ou degenerar. O homem pode evoluir para um Super-homem ou degenerar para um Sub-humano.”

[Yuval Harari, in Sapiens]

(Sobre o capitalismo falamos depois, ou não fosse ele a mãe de todas estas seitas ao ter casado com Deus!)

TeresaRolla.com