Robert Musil: Nunca há uma causa suficiente para o que nos acontece

Outubro 25, 2016/Excerto

“No fundo, poucas pessoas saberão, a meio da vida, como chegaram a ser o que são, aos seus prazeres, à sua visão do mundo, à sua mulher, ao seu carácter, à sua profissão e aos seus êxitos; mas sentem que a partir daí as coisas já não irão mudar muito. Poderia mesmo afirmar-se que foram enganadas, porque não se consegue descobrir em lugar nenhum a razão suficiente para que tudo tenha acontecido como aconteceu, quando teria sido perfeitamente possível ter acontecido de outra forma. O que acontece, aliás, raramente depende da iniciativa dos homens, mas quase sempre das mais variadas circunstâncias, dos caprichos, da vida e da morte de outras pessoas, e, de certo modo, limita-se a vir ter connosco naquele preciso momento. Na juventude, a vida está ainda à nossa frente como uma manhã inesgotável, plena de possibilidades e de vazio; mas logo ao meio-dia algo se anuncia que reclama ser a nossa própria vida, mas que é tão surpreendente como uma pessoa com quem nos correspondemos durante vinte anos sem a conhecer, e que um belo dia, de repente, temos diante de nós e constatamos que é completamente diferente do que havíamos imaginado. Mas o mais estranho é que a maior parte das pessoas nem dêem por isso; adoptam aquele que veio ter com elas e cuja vida se fundiu com a própria, as vivências dele parecem-lhes agora ser a expressão das suas próprias qualidades, e o destino dele é o seu mérito ou a sua desgraça. Sucedeu-lhes o mesmo que às moscas com o papel mata-moscas: algo as apanhou por um pêlo, lhes impediu os movimentos, as manietou a pouco e pouco até ficarem sepultadas sob uma espessa cobertura que já só vagamente corresponde à sua forma primitiva. Nessa altura, já só têm pensamentos desfocados da sua juventude, quando nelas existia qualquer coisa como uma força de resistência. Uma força de tracção turbilhonante que não pára e desencadeia uma tempestade de movimentos de fuga sem orientação; o espírito escarninho da juventude, a sua revolta contra o estabelecido, a disponibilidade para toda a espécie de heroísmo, para o sacrifício e para o crime, a sua ardente gravidade e a sua inconstância – tudo movimentos de fuga. No fundo, impulsos que apenas indicam que nada do que na juventude se empreende é fruto de uma necessidade e de uma clarividência interiores, ainda que nessa fase o modo como isso acontece queira fazer crer que todos os projectos do momento são inadiáveis e necessários.”

in, O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil (1930)

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