A Europa à Deriva, de Slavoj Zizek [a entrevista que nunca foi feita]

Setembro 25, 2016/Review

Slavoj Zizek nasceu a 21 de março de 1949, em Ljubljana, na Eslovénia. É professor na European Graduate School, investigador no Instituto de Sociologia da Universidade de Ljubljana e professor visitante na Universidade de Columbia, de Princeton, de Nova Iorque e do Michigan. Nas suas próprias palavras: “Sou filósofo, não profeta. Não tenho resposta para as perguntas que faço, mas faço-as para criticar a nossa sociedade. Também é importante não repetir o que todos os outros estão a dizer.”

É um dos intelectuais mais controversos da atualidade. É considerado por muitos como o Elvis Presley da filosofia, ou não existissem quilómetros de fila para se assistir a uma conferência dada por ele. No entanto, e como nos diz John Gray no The New York Review of Books, “a ampla influência de Zizek não significa que o seu ponto de vista filosófico e político seja facilmente defensável”. Adam Kirsch, no The New Republic, afirma ainda que Zizek é “o filósofo mais perigoso do Ocidente”.

Ler Zizek pode não ser fácil. Alguns dos seus livros são realmente intrincados e estão cheios de referências vagas a outros pensadores que, se não forem dominadas, podem destruir a vontade de acompanhar o raciocínio do autor. Por outro lado, há um outro Zizek, que está presente em todos os livros e que é realmente ambicioso no pensamento e na lógica que propõe. Há quem diga que o autor não tem limites e que prima pelo irracionalismo, ou não fossem os seus escritos muitas vezes ofensivos e por vezes obscenos. Uma das principais razões para estas críticas centra-se no facto de Zizek defender uma violência que roça o radicalismo, como se pode comprovar no seu livro Violência (2008). Sobre este tema John Gray reforça que “há uma frivolidade trocista nas elegias de Zizek ao terror que lembra mais um ultra-nacionalista do que qualquer pensador de tradição marxista”.

A primeira vez que ouvi falar de Zizek foi em 2011, numa aula de ética do mestrado. Foi-nos pedido que lêssemos e analisássemos O Elogio da Intolerância (2004). Esse livrinho, como lhe chama o autor, expõe todo um novo pensamento (ou talvez uma nova lógica) pela qual deveríamos doravante entender a tolerância, a sua relação com o multiculturalismo e o capitalismo. É, para mim, um dos melhores escritos de Zizek e um livro crucial para pensarmos sobre o nosso tempo.

Desta vez o livro é outro mas o filósofo é o mesmo, e se há 5 anos o Zizek me era desconhecido, hoje já consigo vê-lo com um certo distanciamento. Já li alguns livros dele (desafio qualquer um a ler todos, são mais de 70) e, embora haja pontos em que discordo totalmente daquilo que defende, o certo é que Zizek faz pensar – e esse talvez seja mesmo o seu melhor trunfo.

Além do título apelativo A Europa à Deriva, ler Zizek desafia-nos a abrir as portas a um mundo fantástico de impossibilidades perfeitas que, às vezes, são mesmo o melhor ponto de partida para percebermos o que nos rodeia.

A Europa à deriva trata de três temas: o atual estado da Europa, o terrorismo e a crise dos refugiados. Através destes temas o filósofo constrói uma narrativa que expõe dogmas e preconceitos, conceitos gastos que se multiplicam em significados bilaterais e uma crítica brutal ao capitalismo. (Mas não será Zizek um subproduto desse mesmo capitalismo tão detestado por ele próprio?)
De forma a conseguir expor o máximo de ideias e argumentos que o filósofo defende neste novo livrinho, optei por apresentá-las como tópicos.

Sobre a Europa:

Portanto, onde estamos nós hoje? A Europa está entre as grandes pinças da América, por um lado, e da China, por outro. A América e a China, de um ponto de vista metafísico, são semelhantes: o mesmo frenesi desesperado de tecnologia à solta e de organização desenraizada do homem médio. Quando o recanto mais remoto do mundo já foi tecnicamente conquistado e pode ser economicamente explorado; quando qualquer incidente que se quiser, em qualquer lugar que se preferir, em qualquer momento que se desejar, se torna acessível tão depressa quanto desejarmos; quando, através da «cobertura ao vivo» pela televisão, podemos «experimentar», em simultâneo, uma batalha no deserto do Iraque e um espetáculo de ópera em Pequim; quando, numa rede digital global, o tempo não é mais do que a velocidade, instantaneidade e simultaneidade; quando um vencedor de um programa de reality TV é tido como o grande homem de um povo; então, sim, paira ainda, acima de todo este alvoroço, como um espetro, a pergunta: para quê?; para onde?; e por fim, o quê?…

O exemplo de Sloterdijk:

O que Sloterdijk apontou, e bem, foi o facto de a globalização capitalista não representar apenas abertura, conquista, mas também um globo fechado em si mesmo que separa o seu Interior do seu Exterior. Esses dois aspetos são inseparáveis: o alcance global do capitalismo tem, na sua base, a maneira como introduz em todo o globo uma divisão de classes radical, separando aqueles que estão protegidos pela esfera daqueles que estão fora da sua proteção. Os mais recentes ataques terroristas em Paris, bem como o afluxo de refugiados, são alusões momentâneas ao mundo violento que está do lado de fora da nossa redoma, um mundo que, para nós, que estamos cá dentro, aparece sobretudo nas reportagens televisivas sobre países longínquos e violentos, e não como parte da nossa realidade. 

Os tabus que é preciso descartar:

  • «Um inimigo é alguém cuja história nunca ouvimos.» – A passagem da exterioridade de um ato para o seu «sentido íntimo», para a narrativa por meio da qual o agente o interpreta e justifica, é um movimento em direção a uma máscara enganadora: a experiência que temos das nossas vidas a partir do interior, a história que nós contamos sobre nós mesmos a fim de explicarmos o que estamos a fazer é, fundamentalmente, uma mentira – a verdade está lá fora, naquilo que nós fazemos. 
  • «A equiparação de qualquer referência ao legado emancipatório europeu com o imperialismo cultural e o racismo.» – Apesar da responsabilidade (parcial) da Europa pela situação de que os refugiados fogem, é chegada a hora de se abandonar o mantra esquerdista da crítica ao Eurocentrismo. O capitalismo global não tem qualquer problema em acomodar-se a uma pluralidade de religiões, de culturas, de tradições locais. Por isso, a ironia cruel do anti-eurocentrismo é o facto de, em nome do anti-colonialismo, se criticar o Ocidente no preciso momento histórico em que o capitalismo global deixou de necessitar dos valores culturais ocidentais para funcionar regularmente. 
  • «A noção de que a proteção do nosso modo de vida específico é, em si mesma, uma categoria protofascista ou racista.» – A reação habitual da esquerda-liberal a isto é, evidentemente, uma explosão de moralismo arrogante: mal damos alguma credibilidade ao motivo da «proteção do nosso modo de vida» comprometemos a nossa posição, uma vez que propomos uma versão mais modesta daquilo que os populistas anti-imigrantes defendem abertamente. Os partidos centristas rejeitam o racismo manifesto dos populistas anti-imigrantes, mas, ao mesmo tempo, afirmam «compreender as preocupações» das pessoas comuns e promulgam uma versão mais «racional» da mesma política.  
  • «Obstar-se a qualquer crítica ao Islão como um caso de «islamofobia.» – Basta do medo patológico que muitos liberais de esquerda ocidentais têm de ser culpados de islamofobia. Esta constelação reproduz na perfeição o paradoxo do superego: quanto mais obedecemos àquilo que o agenciamento pseudo-moral exige de nós, mais culpados somos – é como se quanto mais tolerássemos o Islão, mais forte fosse a pressão dele sobre nós… 
  • «A equiparação da religião politizada ao fanatismo, e a inter-relacionada representação dos islamitas como fanáticos «irracionais» pré-modernos.» – A comunidade muçulmana europeia enfrenta uma situação difícil e paradoxal: a única força política que não os reduz a cidadãos de segunda classe e lhes concede espaço para instaurarem a sua identidade religiosa são os «ímpios» ateus liberais, enquanto aqueles que mais se aproximam da sua prática social religiosa, os cristãos que constituem a sua imagem-espelho, são os seus maiores inimigos políticos. Embora os nossos fundamentalismos estejam mais marginalizados que os do mundo muçulmano, a nossa crítica liberal-secular ao fundamentalismo também está maculada pela falsidade. 

As manifestações de nível zero:

Que tipo de universo habitamos nós, que pode celebrar-se a si mesmo como uma cidade de escolha, mas na qual a única opção disponível ao consenso democrático instaurado é uma cega descarga de emoções? O triste facto de uma oposição ao sistema não conseguir articular-se sob a aparência de uma alternativa realista, ou pelo menos de um projeto utópico dotado de sentido, mas limitar-se a assumir a forma de uma explosão insensata, é um grave libelo da nossa difícil situação. De que serve a nossa celebrada liberdade de escolha quando a única escolha é entre o acatamento das regras e a violência (auto-) destrutiva? 

A economia política dos refugiados e os novos apartheids:

A desordem em curso é o verdadeiro rosto da Nova Ordem Mundial. A culpa pela crise alimentar em muitos países do Terceiro Mundo não pode ser atribuída aos suspeitos habituais, como a corrupção, a ineficiência e o intervencionismo estatal. Essa crise está em dependência direta da globalização da agricultura. A política ocidental global a longo prazo que foi imposta pela União Europeia e pelos Estados Unidos e decretada durante décadas pelo Banco Mundial, pelo Fundo Monetário Internacional e por outras instituições internacionais, pressionou os países africanos e asiáticos a «ajustamentos estruturais» que arruinaram a autossuficiência alimentar desses países. Os países passaram a depender cada vez mais dos alimentos importados e, dessa forma, são mantidas numa dependência pós-colonial e ficam cada vez mais vulneráveis às flutuações de mercado. Se o problema não for resolvido, deveríamos considerar seriamente a aproximação da nova era de apartheid, em que partes isoladas do mundo que dispõem de alimentos e energia em abundância ficarão separados do exterior caótico onde grassa o caos, a fome e a guerra permanente.

O fluxo de refugiados:

O que deveria surpreender-nos é a maneira como os nossos meios de comunicação apresentam a crise dos refugiados: é como se, para lá da Grécia, houvesse uma espécie de buraco negro a vomitar refugiados. O que sabemos é que existe uma complexa economia do transporte de refugiados (que gera lucros de milhares de milhões de dólares), portanto, quem está a financiá-la, a agilizá-la? Onde estão os serviços de inteligência europeus para explorar esse tenebroso submundo? O facto de os refugiados estarem numa situação desesperada não exclui o facto de o seu fluxo fazer parte de um projeto bem planeado.

A liberdade de movimento para todos:

Os refugiados levam a sério o princípio, proclamado pela União Europeia, da «liberdade de movimento para todos». No entanto, mais uma vez, temos de ser específicos neste ponto. Existe uma «liberdade de movimento» no sentido da liberdade de viajar, e uma «liberdade de movimento» mais radical, no sentido de eu me instalar em qualquer país que queira. A União Europeia garante (a modos que, mais ou menos) esse direito aos cidadãos dos seus países membros, e é isso que faz da UE a UE (entre outras coisas), e exigir a globalização imediata desse direito equivale a exigir que se expanda a UE para o mundo inteiro. A efetivação dessa liberdade pressupõe nada menos que uma revolução socioeconómica radical. Porquê? No nosso mundo global, as mercadorias circulam livremente, mas as pessoas não: estão a surgir novas formas de apartheid. O tema dos muros porosos, da ameaça de se ser inundado por estrangeiros, é estritamente imanente ao capitalismo global, é um índice daquilo que há de falso na globalização capitalista. A forma como o universo do capital se relaciona com a liberdade de movimento dos indivíduos é, portanto, inerentemente contraditória: precisa de indivíduos «livres» enquanto mão de obra barata, mas, ao mesmo tempo, necessita de controlar os seus movimentos, uma vez que não pode dispensar as mesmas liberdades e direitos a todas as pessoas.

A falsidade do multiculturalismo:

A imposição dos valores ocidentais enquanto direitos humanos universais e o respeito pelas diferentes culturas, independentemente dos horrores que possam fazer parte de tais culturas – são os dois lados da mesma mistificação ideológica. Já muito se escreveu sobre a maneira como a universalidade dos direitos humanos universais está distorcida, como secretamente atribuem preferência aos valores e às normas ocidentais (a prioridade do indivíduo sobre a comunidade, etc.). Mas também deverá acrescentar-se a este entendimento que a defesa anticolonialista e multiculturalista da multiplicidade dos modos de vida é, também, falsa: inclui os antagonismos contidos em cada um desses modos de vida particulares, justificando os atos de brutalidade, de sexismo e de racismo como expressões de um modo de vida específico que não temos o direito de comparar com os «valores ocidentais» alheios.

A impenetrabilidade do «próximo»:

Para se compreender o contexto mais profundo da relação problemática com os nossos semelhantes, deveria efetuar-se um exame filosófico mais minucioso à noção de Próximo. Como mostrou Adam Kotsko no seu Creepiness, «arrepiante» é o nome que hoje se dá ao âmago inquietante de um próximo: todo o próximo é, em última análise, arrepiante. O que torna arrepiante um próximo não são os seus atos estranhos, mas a impenetrabilidade do desejo que sustenta esses atos.

O lado obscuro da globalização:

A investida da permissividade hedonista após 1968, que fazia parte da perspetiva de integrar as nações em comunidades mais vastas mantidas unidas pelo mercado global, não deu origem à tolerância universal. Antes, pelo contrário, desencadeou uma nova vaga de segregação racista. Aqueles que entendem a globalização como uma oportunidade para que toda a Terra seja um espaço unificado de comunicação, um espaço que reúna toda a Humanidade, muitas vezes não conseguem aperceber-se do lado obscuro daquilo que propõem. Uma vez que um Próximo é, como Freud suspeitara há muito tempo, sobretudo uma Coisa, um intruso traumático, alguém cujo diferente modo de vida (ou, melhor, cujo modo de jouissance, materializado nas suas práticas e rituais sociais) nos perturba, faz desequilibrar e descarrilar a nossa maneira de viver, quando o Próximo fica demasiado perto, também isso pode dar origem a uma reação agressiva destinada a livrar-nos desse intruso perturbador. 

A alienação pode ser a solução:

Como disse Peter Sloterdijk: «em primeiro lugar e acima de tudo, mais comunicação significa mais conflito.» É por isso que ele tem razão ao afirmar que a atitude de «nos-compreendermos-uns-aos-outros» tem de ser complementada pela atitude de «não-nos-estorvarmos-uns-aos-outros», de mantermos uma distância apropriada, pondo em prática um novo «código de discrição». A civilização europeia acha mais fácil tolerar diferentes formas de vida precisamente devido àquilo que os seus críticos denunciam como a sua fraqueza e fracasso, ou seja, a alienação da vida social. Um dos significados da alienação é a inclusão da distância no próprio tecido social da vida quotidiana: mesmo que eu viva lado a lado com os outros, no meu estado normal, ignoro-os. Estou autorizado a não me aproximar demasiado dos outros. Movo-me num espaço social onde interajo com outros obedecendo a certas regras exteriores «mecânicas», sem compartilhar do seu mundo interior. A lição a aprender será porventura a de que, por vezes, é indispensável uma certa dose de alienação para a coexistência pacífica dos modos de vida. Por vezes, a alienação não é um problema, mas uma solução. 

A contínua falta de auto-compreensão:

A universalidade é uma universalidade de «estranhos», de indivíduos reduzidos ao abismo da impenetrabilidade, não apenas para os outros mas também para si mesmos. Quando se trata de estrangeiros deveríamos ter sempre em mente a fórmula concisa de Hegel: os segredos dos antigos egípcios eram secretos também para os próprios egípcios. É por isso que a maneira privilegiada de irmos ao encontro do próximo não é a da empatia, a de tentarmos compreendê-los, mas um riso desrespeitoso que tanto zombe deles como de nós, na nossa mútua falta de (auto) compreensão (inclusive das piadas «racistas»).

O mito das «pessoas como nós»:

Quanto aos refugiados, e se passar a conhecê-los revelar que eles são mais ou menos como nós, impacientes e violentos, exigentes, e, além disso, integrando uma cultura que não consegue aceitar muitas das características que nós percebemos como auto-evidentes? Deveria, portanto, cortar-se a ligação entre os refugiados e a empatia humanitária, que fundamenta a ajuda aos refugiados na nossa compaixão pelo seu sofrimento. Deveríamos prestar essa ajuda, porque é nosso dever fazê-lo, sem qualquer sentimentalismo que decomponha o momento em que percebemos que a maioria dos refugiados não é composta por «pessoas como nós» (não porque sejam estrangeiros, mas porque nós próprios não somos «pessoas como nós»). Parafraseando Winston Churchill: «Às vezes, fazer o bem não basta, mesmo que seja o melhor que se consegue fazer. Às vezes, tem de se fazer o que é preciso.» Não basta fazer (o que consideramos ser) o melhor para os refugiados, recebê-los de braços abertos, demonstrar a simpatia e a generosidade máxima que as nossas capacidades nos permitem. O próprio facto de essa generosidade nos fazer sentir bem deveria deixar-nos desconfiados: não estaremos a fazer isso para esquecermos o que é preciso fazer? 

A utopia da militarização global:

O que deveria a Europa fazer? Fredric Jameson propôs, recentemente, a utopia da militarização global da sociedade como um modo de emancipação. É pura loucura pensar-se que é possível deixar desenrolar em liberdade um tal processo – no mínimo, os refugiados necessitam de provisões e de cuidados médicos. O que é necessário para travar o caos é uma coordenação e organização em larga escala: o estabelecimento de centros de receção perto do próprio epicentro da crise (Turquia, Líbano, costa da Síria, costa do Norte de África), onde milhares de pessoas têm de ser registadas e verificadas; o transporte organizado daqueles que forem aceites para centros de acolhimento na Europa, e a sua redistribuição para os potenciais locais de instalação. Os militares são os únicos agentes capazes de levar a cabo tão grande tarefa de uma maneira organizada. Argumentar-se que esse papel dos militares cheira a estado de emergência é simples hipocrisia: quando dezenas de milhares de pessoas passam por áreas densamente povoadas sem qualquer organização, isso é que é um estado de emergência, e certas partes da Europa estão, hoje, assim. Os critérios de aceitação e de instalação têm de ser formulados de maneira clara e explícita: quem e quantos aceitar, onde os realojar, etc. A arte, aqui, reside em encontrar o caminho intermédio correto, entre satisfazer os desejos dos refugiados (tendo em conta o seu desejo de se mudarem para países onde já tenham familiares, etc.) e as capacidades dos diferentes países. O direito total à «liberdade de movimento» deve ser limitado, senão por outro motivo, então pelo facto de ele nem sequer existir entre os refugiados. Além disso, é um facto elementar que a maior parte dos refugiados provém de uma cultura incompatível com as noções de direitos humanos da Europa Ocidental. O problema reside no facto de a óbvia solução tolerante (respeito mútuo pelas sensibilidades dos outros) não funcionar, e, de modo não menos óbvio, no seguinte: se os muçulmanos acham «impossível suportar» as nossas imagens blasfemas e o nosso humor irrefletido (que consideramos fazerem parte das nossas liberdades), os liberais ocidentais também acham «impossível suportar» muitas das práticas (como a subordinação das mulheres) que fazem parte da «relação viva» dos muçulmanos. Em suma, as coisas explodem quando os membros de uma comunidade religiosa sentem como injúria blasfema e como um perigo para o seu modo de vida, não um ataque direto à sua religião, mas o próprio modo de vida de outra comunidade. 

O que devemos fazer:

Precisamos portanto de fazer duas coisas: (1) formular um conjunto mínimo de normas obrigatórias para todos, sem recear que as mesmas possam parecer «eurocêntricas»: a liberdade religiosa, a proteção da liberdade individual contra a pressão do grupo, os direitos das mulheres…; (2) dentro desses limites, insistir incondicionalmente na tolerância dos diferentes modos de vida. E se as normas e a comunicação não funcionarem? Então deverá aplicar-se a força da Lei em todas as suas formas. Deve rejeitar-se a predominante atitude humanitária da esquerda liberal:os queixumes que moralizam a situação – o mantra de que «a Europa perdeu a empatia, é indiferente ao sofrimento dos outros», etc. – são apenas o reverso da brutalidade contra os imigrantes. Eles partilham o pressuposto de que a defesa do nosso próprio modo de vida exclui o universalismo ético. Como já indicámos, deveríamos evitar ficar enredados no jogo liberal do “de quanta tolerância podemos dispôr”: saber se deveríamos tolerar que impedissem os seus filhos de frequentarem as escolas estatais, que obrigassem as suas mulheres a vestir-se e a comportar-se de uma certa maneira, que combinassem os casamentos dos seus filhos, que brutalizassem os homossexuais presentes entre eles… A este nível, claro, nunca somos tolerantes o suficiente, ou somos sempre-já demasiado tolerantes, descuidando os direitos das mulheres, entre outros. A única maneira de sairmos deste impasse é ir além da mera tolarância dos outros: não respeitar apenas os outros, oferecer-lhes uma luta comum, uma vez que os nossos problemas são, hoje, comuns.

O debate sobre a Leitkultur:

No debate sobre a Leitkultur (a cultura dominante) de há uma década, os conservadores insistiam que cada Estado se baseia num espaço cultural predominante, o qual deveria ser respeitado pelos membros de outras culturas habitantes nesse mesmo espaço. Em vez de entoarmos o Beautiful Soul, lamentando a emergência de um novo racismo europeu proclamado por essas declarações, deveríamos dirigir um olhar crítico sobre nós próprios e inquirir até que ponto o nosso multiculturalismo abstrato contribuiu para este triste estado de coisas. Se todas as partes não partilharem e respeitarem a mesma civilidade, então o multiculturalismo transforma-se numa forma de ignorância mútua ou de ódio mútuo legalmente regulamentados. O conflito acerca do multiculturalismo já é um conflito sobre a Leitkultur: não é um conflito entre culturas, mas um conflito entre diferentes visões do modo como as diferentes culturas podem e devem coexistir, sobre as regras e as práticas que essas culturas terão de partilhar se quiserem coexistir. A única maneira de sairmos deste impasse é propormos um projeto universal positivo compartilhado por todos os participantes e pugnarmos por ele. É por isso que uma tarefa crucial daqueles que lutam, hoje em dia, pela emancipação é ir além do mero respeito pelos outros, rumo a uma Leitkultur positiva e emancipatória que consiga sustentar, por si só, uma coexistência autêntica e uma imisção das diferentes culturas. O nosso axioma deveria ser o de que a luta contra o neocolonialismo ocidental, tal como a luta contra o fundamentalismo, a luta do Wikileaks e de Snowden tal como a luta das Pussy Riot, a luta contra o antissemitismo tal como a luta contra o sionismo agressivo, fazem parte de uma mesma luta universal. 

Uma nova maneira de viver:

A presente vaga de migrações na Europa não constitui uma exceção. Na África do Sul, há mais de um milhão de refugiados do Zimbabué, sujeitos aos ataques dos pobres locais por lhes roubarem os seus empregos. E haverá mais, não apenas por causa dos conflitos armados, mas por causa dos novos “Estados párias”, das crises económicas, dos desastres naturais, das alterações climáticas, etc. Quando aconteceram, no passado, coisas semelhantes, as alterações sociais ocorreram de uma maneira espontânea e selvagem, com violência e destruição. Uma tal perspetiva é catastrófica nas condições atuais, quando há armas de destruição em massa disponíveis para todas as nações. A principal lição a reter é, portanto, a de que a Humanidade deveria preparar-se para viver de uma maneira mais “plástica” e nómada: as alterações locais ou globais no ambiente poderão impor a necessidade de inéditas transformações sociais em larga escala e de movimentos das populações. Todos nós estamos mais ou menos enraizados num modo de vida específico, com pleno direito de o protegermos, mas certas contingências históricas poderão lançar-nos, de súbito, para uma situação em que sejamos obrigados a reinventar as coordenadas básicas do nosso modo de vida. Uma coisa é clara: em casos de tamanha turbulência, a soberania nacional terá de sofrer uma redefinição radical e novos níveis de cooperação global terão de ser inventados. A Europa terá de reafirmar o seu total empenho em proporcionar meios para a sobrevivência digna dos refugiados. Não deverá haver aqui nenhum compromisso: as grandes migrações são o nosso futuro, e a única alternativa a esse empenho é uma renovada barbárie (aquilo a que alguns chamam “choque de civilizações”). No entanto, a tarefa mais difícil e importante é uma mudança económica radical que venha abolir as condições que criam refugiados. A derradeira causa dos refugiados é o próprio capitalismo global de hoje e os seus jogos geopolíticos e, se não o transformarmos radicalmente, os imigrantes da Grécia e de outros países europeus em breve juntar-se-ão aos refugiados africanos.

[Excertos retirados de: Slavoj Zizek, A Europa à Deriva, Objectiva, 2016]

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