A meio de agosto, por acaso, estava em França. Por diversos motivos, não estive muito tempo on-line durante esse mês. De qualquer maneira, duas ondas de crispação furaram o período de isolamento. A ilha da Madeira a arder e a proibição, numa praia de Nice, do uso da burka. A internet é fantástica neste ponto, mostra-nos facilmente os hits do momento. Quanto aos incêndios pouco posso dizer para além de afirmar, e sentir, uma profunda solidariedade para com todas as pessoas que se viram a braços com um monstro tão incontrolável durante este verão. Por outro lado, quanto à explosão de ideias que se disseminaram nas redes sociais, e nos media em geral, por causa das burkas, burkinis e afins, considero ter muito mais a dizer.

Naqueles dias não tive muito tempo para escrever mas houve um pensamento que não parava de latejar quando pensava no assunto:

Isto não aconteceu em Portugal nem numa das praias de Gaia ou da Linha. Isto aconteceu em França e, embora possa parecer estranho a muita gente, a «realidade» muda radicalmente de país para país, mesmo quando as fronteiras deixaram de demarcar a entrada num novo mundo.

Apercebi-me que as pessoas estão, naturalmente, habituadas a medir o mundo a partir da própria janela. Abre-se a janela e o mundo é uma rua. A verdade é que França está a braços com uma situação que é, no mínimo peculiar. França está cheia de mulheres tapadas dos pés à cabeça (e não, não é só um lenço pela cabeça – a maior parte anda mesmo completamente tapada e só com os olhos à mostra!).

Já escrevi noutra altura, a propósito do mesmo tema, que me é desconfortável não conseguir distinguir os traços faciais de quem se cruza comigo na rua. Por uma questão cultural ou por uma fobia particular sou obrigada a assumir que me faz confusão lidar com esta realidade que me é nova.

É certo que estou a restringir esta minha análise às burkas ditas completas (aquelas que só deixam os olhos à mostra) e, na verdade, o uso do lenço pela cabeça não me faz qualquer confusão – até ao ponto em que começamos a discutir a igualdade de género e os direitos das mulheres. É este o momento em que as duas (ou mais) expressões reclamam uma e a mesma coisa – a submissão do género feminino a um patriarcado que eu achava estar em vias de extinção. A verdade é que não está, basta olharmos à nossa volta com atenção para o comprovar.

E esta é só uma das razões que me faz ficar perplexa quando vejo mulheres, especialmente feministas, a defenderem o uso da burka. Não estarão a ser confundidos conceitos que se tornam cruciais no tratamento deste tema?

Uma outra questão se impõe sobre o tema e que me surpreende a pouca expressão que alcança é o facto de termos, hoje, cidades completamente vigiadas por CCTV em nome da segurança. E o uso destes trajes compromete exatamente essa segurança, que nos é tão cara.

França está a um passo de nos fazer sentir que estamos num médio oriente bem decorado, (pudera!), mas até aqui já explodem bombas. França tem um problema em mãos e só o nega quem acha que França pode ser medida à imagem de Portugal, esse paraíso à beira mar plantado, onde a proximidade humana ainda acontece e parece real.

Como diz Zizek, a noção de «próximo» deveria hoje ser sujeita, por todos, a uma análise filosófica. Talvez esse seja mesmo o primeiro passo para tentarmos compreender o mundo atual. E como diz Freud, o «próximo» é, antes de mais, um intruso cujo modo de vida nos ultrapassa de uma forma absoluta. É esta impenetrabilidade radical do outro que, na maior parte das vezes, nos assusta e nos afasta. Ora, não estamos nós, seres humanos, cada vez mais afastados uns dos outros? Não estaremos nós a provar que a há diferenças reais e difíceis de superar?

Muitas coisas podem ser ditas sobe este tema e muitas considerações serão sempre deixadas de fora. O que eu gostava mesmo era que se começassem a fazer as perguntas certas, sem subterfúgios e sem medo de se ser tomado como um fascista eurocêntrico ou como um leviano de esquerda.

A Europa está à deriva e não é possível continuar a ignorar esse facto. As premissas pelas quais a União Europeia tem vindo a atuar estão gastas e não produzem soluções. Vivemos um constante adiamento das grandes questões que movem o mundo e a continuação dessa postura pode ser o nosso fim.

A questão das burkas e dos burkinis é só mais uma constatação da mudança que se opera ao nível do subsolo europeu, e que chega até nós sob estas formas radicais.

Por outro lado, gostava de deixar claro que não considero que a discussão sobre este tema deva ser uma questão religiosa. Estamos numa Europa laicizada que lutou muito para construir uma civilidade emancipadora e racional, que permita um código de conduta igual para todos. E é exatamente este o ponto que eu gostava de ressaltar sobre este assunto. Os direitos humanos têm que se fazer valer acima de qualquer característica particular. Não há exceções nem tolerância. Os direitos humanos são a maior conquista da humanidade e a última coisa que devemos fazer é tolerar comportamentos que os descaracterizam e enfraquecem. A questão das burkas, dos burkinis e dos lenços pela cabeça é uma questão de direitos humanos. É uma questão que nos obriga a constatar que ainda não são direitos universais, e o nosso papel quanto a isso deveria ser implacável e inflexível, ou não tivesse Kant sonhado com a fórmula mais notável de concretizar a humanidade.

Teresa Rolla

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