A nossa casa nunca é só uma…

Setembro 7, 2016/Blog

(V)ir a casa não é nada daquilo que os que não têm que (v)ir a casa pensam que é! Ter que (v)ir a casa implica viver longe desse sítio onde estão as pessoas que nos viram crescer, longe das pessoas que nos conhecem a alma e das (poucas, muito poucas!) que nos amam incondicionalmente. Implica viver longe mas também não assim tão longe, nada que exija um voo transatlântico ou qualquer coisa acima das 5h de viagem – nesses casos, v(ir) “a casa” uma vez por ano é encarado com naturalidade. Mas, neste caso concreto, não há desculpas – 300km só dão direito a um visto de 3 meses de ausência.

Quando crescemos rodeados de amor e de segurança emocional sair de casa pode não ser uma tarefa fácil. O mundo que até aí nos parecia um lugar confortável e pacato pode passar a parecer um lugar estranho e difícil de circunscrever, um lugar que deixámos de conseguir agarrar e que, por vezes, se esvai por entre os dedos.

Não foi a primeira ver que deixei a minha zona de conforto; mas é a primeira vez que sinto que não faz sentido voltar. Não agora, não nos próximos tempos, não para sempre, talvez.

Todos sabemos que, mais cedo ou mais tarde, a vida vai acabar por nos mostrar o caminho do desapego e nos vai fazer querer perseguir um sentido que só nós é que vemos. Ensinaram-nos que é esse o curso natural das coisas e nós aceitamos as cláusulas do contrato “natural” sem muitas reservas.

O que nós não sabíamos é que esse sentido, muitas vezes, está longe da realidade que era a nossa. Aceitar isto pode parecer algo básico mas a verdade é que, para mim, nunca deixou de ser complicado.

A vida passa a dançar entre dois polos gravitacionais – entre duas realidades distintas que convivem diariamente numa guerra interna de emoções. O cá e o lá deixam de ter definição como se deixássemos de saber onde pertencemos. Temos duas casas, duas cidades, dois amores inscritos na pele dos dias. Dois mundos separados por quilómetros que conhecemos de cor mas que nunca se encontram.

Vir a casa é sentir amor em estado puro ao mesmo tempo que sabemos que há outro amor à nossa espera, sempre. Vir a casa é cheirar o perfume da nossa mãe num abraço que incendeia a alma, é reacender o companheirismo inato que temos com o nosso irmão com quem partilhamos o mundo numa linguagem que não precisa de palavras, é reconhecer que a nossa avó, que sempre foi uma segunda mãe, pode não ser eterna e é ficar com medo que o mundo nos roube o tempo para dizer tudo o que queremos.

Vir a casa é uma luta interior que não custa menos com o tempo.

Teresa Rolla

TeresaRolla.com