Philip Roth: Como começou a literatura europeia?

Setembro 1, 2016/Excerto

«Sabem como começou a literatura europeia?», perguntava, após ter feito a chamada na primeira aula. «Com uma discussão. Toda a literatura europeia nasce de uma briga.» Depois pegava no seu exemplar da Ilíada e lia aos estudantes os versos da introdução. «Canta ó deusa, a cólera de Aquiles […] mortífera […] desde o momento em que primeiro se desentenderam o Atrida, soberano dos homens, e o divino Aquiles.» E acerca de que discutem estas duas violentas e poderosas criaturas? De uma coisa tão primitiva como uma rixa de taberna. Discutem por causa de uma mulher. Uma rapariga, na verdade. Uma rapariga roubada ao seu pai. Uma rapariga raptada numa guerra. Ora, Agamémnon prefere muito esta rapariga à sua mulher, Clitemnestra. “Prefiro-a a Clitemnestra, minha esposa legítima, pois em nada lhe é inferior, nem de corpo nem de estatura.” Isso revela claramente por que não quer abrir mão dela, não é verdade? Quando Aquiles exige que Agamémnon devolva a rapariga ao pai a fim de apaziguar Apolo, o deus que está furiosamente zangado devido às circunstâncias que rodearam o rapto, Agamémnon recusa: só anuirá se Aquiles lhe der a rapariga dele em troca. Voltando assim a inflamar Aquiles. O adrenalínico Aquiles, o mais altamente inflamável dos explosivos homens violentos que escritor algum jamais teve o prazer de retratar, sobretudo quando estão em causa o seu prestígio e o seu apetite: a máquina de matar mais hipersensível da história da guerra. O famoso Aquiles: afastado e antagonizado por uma afronta à sua honra. Grande e heróico Aquiles que, pela força da sua cólera perante um insulto – o insulto de não conseguir a rapariga –, se isola e coloca desafiadoramente à margem da própria sociedade da qual é o glorioso da qual é o glorioso protetor e que tão enormemente precisa dele. Uma desavença, portanto, uma desavença brutal por causa de uma jovem e do seu jovem corpo, das delícias da rapacidade sexual: é aí, para o bem ou para o mal, é nessa afronta ao direito fálico, à dignidade fálica de um possante príncipe guerreiro, que começa a literatura imaginativa da Europa, e é por isso que, quase três mil anos depois, é por aí que hoje vamos começar…»

Philip Roth, A Mancha Humana (2000)

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