Henrique Raposo: Multiculturalismo X Cosmopolitismo

Agosto 29, 2016/Excerto

[Excertos de um artigo da autoria de Henrique Raposo, publicado na revista E (Expresso) de 27/08/2016]

Meio século depois, a batalha de Argel começa a ser transposta para este lado do Mediterrâneo. A sucessão de ataques terroristas levados a cabo por muçulmanos em solo europeu está a criar um clima de tensão quase insuperável entre a maioria branca e a minoria muçulmana.

O radicalismo islamita torna impossível o dia a dia, pois a intenção dos terroristas é mesmo essa – levar as autoridades e os cidadãos brancos até ao ponto sem retorno, isto é, o ponto em que qualquer civil muçulmano passa a ser encarado como um potencial inimigo; este medo gera a desconfiança mútua que corrói por completo os laços cívicos entre brancos e castanhos; no final, resta às autoridades a imposição de um estado de emergência que, com o tempo, evolui para uma guerra civil. Em 1962, essa guerra civil determinou a derrota da pátria de Camus. Em 2016, não temos esse luxo. Desta vez, Camus não pode perder. O que está em causa não é uma colónia ou província distante, mas sim a própria natureza das democracias europeias, a começar na francesa. A aliança entre democratas europeus e democratas muçulmanos não pode ser uma miragem. Quem acredita na democracia, na liberdade e no pluralismo cosmopolita tem o dever de fazer tudo para construir essa aliança. Por outras palavras, tem o dever de lutar ao mesmo tempo contra islamitas, nacionalistas de direita e multiculturalistas de esquerda, os herdeiros do terceiro-mundismo de Sartre.

A direita do choque de civilizações não está disposta a encontrar diferentes matizes nas comunidades muçulmanas; esta direita concebeu um homem de palha, o muçulmano, que é visto como um homem inconciliável com o homem ocidental.

Curiosamente, a esquerda do politicamente correcto multiculturalista atua da mesma maneira, transformando o radicalismo islamita e antiocidental na única versão visível do islão. É uma das grandes fraudes intelectuais do nosso tempo: em nome da retórica antiocidental à maneira de Said, herdeira do anticolonialismo de Sartre, a esquerda está sempre disposta a defender um movimento cultural e político que só pode ser visto como fascista ou reacionário – o islamismo radical.

Seyran Ates, feminista alemã de origem turca que luta há anos contra esta aliança entre o multiculturalismo ocidental e o islamismo radical, resumiu bem a questão:

“As feministas de esquerda alemãs são paternalistas. Fazem manifestações contra a Igreja Católica, mas insistem em tolerar os véus nas mulheres turcas, porque afirmam que isso permite à mulher turca preservar a sua cultura. Mas o véu não é mais do que uma expressão de opressão.”

Perante o choque entre uma rapariga muçulmana que quer viver como uma europeia normal e a sua família tradicionalista que quer impor um casamento forçado, os ideólogos de esquerda defendem a tradição representada pela família e não a liberdade de escolha da rapariga.

Repare-se na perversão que domina o nosso debate: os muçulmanos que procuram harmonizar o islão com a democracia são ridicularizados pela esquerda; são descritos através da caricatura (Uncle Tom) do sujeito que não tem consciência de que já foi mentalmente colonizado pelo eurocentrismo. (…) Se estes muçulmanos liberais são ridicularizados, os islamitas são respeitados e legitimados, pois são heróis da luta contra o “imperialismo eurocentrico”. A fraude até seria cómica se estivesse nas margens do ar do tempo; como está bem no centro da narrativa vigente, é mesmo uma tragédia: de manhã, a esquerda defende os direitos dos gays e das mulheres; à tarde, apoia pela ação ou pela inação o movimento mais homofóbico e misógino, o radicalismo islamita.  

É importante perceber que esta forma de pensar, o multiculturalismo, não tem apenas uma dimensão discursiva ou intelectual (também conhecida por “politicamente correto”). O multiculturalismo é em si mesmo uma política de Estado, é um dos braços do Estado social de vários países e cidades europeias. O caso de Birmingham, a segunda cidade do Reino Unido, é um bom exemplo.

Em 1985, uma onda de motins rebentou na cidade. Na resposta, as autoridades criaram nove conselhos comunitários para nove comunidades distintas, que passaram a ter assento político na câmara municipal (exs: African and Caribbean People’s Movement, Council of Black-Led Churches ou Bangladeshi Islamic Projects Consultive Committee). A perversão culturalista desta medida criou dois problemas, um moral e um político. O problema moral está na efetiva anulação do conceito de ‘indivíduo’ e a elevação do conceito de ‘comunidade’; o indivíduo deixa de ser independente, deixa de ter um livre arbítrio capaz de transcender a sua origem. O problema político é evidente: as comunidades passaram a lutar entre si pelos recursos do orçamento municipal; o convívio cosmopolita entre pessoas de diferentes etnias e religiões não só é negado do ponto de vista filosófico e moral como é estimulado politicamente. A identidade de cada indivíduo, seja ele negro, castanho ou branco, deixa de ser republicana, constitucional e patriota e passa a ser culturalista, tribal e pós ou antipatriota. Os direitos (quer os civis quer os sociais) deixam de depender de um conceito de cidadania universal e passam a depender de uma fidelidade rácica e tribal, numa espécie de apartheid financiado pelo Estado social.

Como defende Kenan Malick, é neste ponto que começa a perversão da retórica antirracismo que tutela o politicamente correcto: a igualdade deixa de ser uma luta pela paridade legal de todos os indivíduos independentemente da sua raça ou religião e passa a ser a defesa de direitos culturais ligados a uma determinada raça ou religião; cada comunidade passa a ter o seu conjunto específico de direitos e deveres completamente distinto dos restantes. Em consequência perde-se o centro vital, o chão comum partilhado por todos, a pátria cívica.

Portanto, é urgente separar as águas entre dois conceitos: multiculturalismo não é cosmopolitismo; o multiculturalismo é uma hidra de diversos nacionalismos, é o exato oposto de uma sociedade aberta, plural e cosmopolita. Se um cosmopolita defende a diversidade e a miscigenação no mesmo chão comum baseado na herança do direito natural (os direitos inalienáveis de qualquer indivíduo independentemente da sua origem geográfica, étnica ou religiosa), o multiculturalismo defende a diversidade sem mistura, porque recusa a ideia de chão comum, recusa a ideia de que possa existir uma lei universal para cristãos e muçulmanos.

A jusante, só podemos ser bons cosmopolitas se mantivermos a montante uma enorme estima pela nossa própria casa; só podemos amar a humanidade de amarmos o vizinho do 4°esquerdo, só podemos ver a Humanidade num estrangeiro se amarmos a nossa rua, a nossa cidade, a nossa pátria. Ora, durante as últimas décadas, o multiculturalismo representou na prática a destruição organizada da nossa própria casa, a erradicação das narrativas nacionais com centenas de anos, a diabolização das nossas religiões com milhares de anos. Como é que podemos agora reconstruir uma noção de pátria que nos liberte do multiculturalismo e que, ao mesmo tempo, evite o nacionalismo?

Por agora, convém apenas frisar que a pátria é mesmo aquilo que andamos a pedir, mesmo quando não temos essa noção. A esquerda celebra a liberalização dos costumes e da moral, celebra até a morte da família, mas reclama contra a liberalização da economia, globalização e desregulamentação da economia que, por exemplo, extinguiu a fábrica como grande centro de comunhão social e os sindicatos como grandes corpos intermédios. A direita celebra a liberalização da economia, mas critica a liberalização dos costumes, sentindo-se perdida numa sociedade que despreza os laços religiosos e familiares. Apesar das diferenças, esquerda e direita estão a pedir a mesma coisa: a pátria, esse espaço onde sindicatos, empresas, igrejas, famílias, associações e clubes se juntam numa lealdade de fundo ao mesmo chão comum.

TeresaRolla.com