Direito a Ofender, de Mick Hume [a entrevista que nunca foi feita]

Julho 24, 2016/Review/5 min. a ler

Título: Direito a Ofender
Autor: Mick Hume
Editora: Tinta da China (2016)
Ano: 2015
Páginas: 352
Nota: 19/20

Mick Hume nasceu em 1959 em New Haw, Surrey. É um jornalista e escritor britânico, editor da revista Spiked e manteve uma coluna semanal no jornal The Times durante dez anos. Nos últimos anos tem-se destacado como defensor da liberdade de expressão e de imprensa, escrevendo sobre o tema no The Times, The Sunday Times, The Independent e Sun.

Mais uma vez descobri a existência deste livro no semanário do Expresso. O título chamou a minha atenção de uma forma imediata. Direito a Ofender (a liberdade de expressão e o politicamente correto) – afinal não sou só eu a achar que algo errado e real se passa com estas matérias, afinal há quem se dedique a esta temática ainda hoje, afinal Stuart Mill não está morto.

Foram muitos os afinais que se levantaram e a curiosidade sobre o que defenderia Hume fez-me pô-lo em primeiro lugar na longa lista de espera de livros por ler.

Mick Hume defende exatamente aquilo que eu achava que ele defenderia com um título destes, mas nem por isso lê-lo foi uma desilusão, muito pelo contrário. Hume faz um apanhado extremamente real sobre os paradoxos que atravessamos hoje em relação à liberdade de discussão e de imprensa. E faz-nos ter consciência dos muitos engodos em que podemos facilmente cair e radicar.

Por outro lado, mostra-nos de uma forma visceral a importância máxima que é preservarmos a liberdade de expressão acima de tudo e de todos os direitos. À primeira vista pode parecer um pensamento demasiado radical, mas se nos dispusermos a pensar e lhe dedicarmos algum tempo verificamos (facilmente) que o valor máximo de estar vivo é a liberdade – e se ela começa nalgum lado esse lado é o nosso pensamento.

De forma a transmitir um bocadinho daquilo que Mick Hume se propôs abordar neste livro decidi fazer(-lhe) uma entrevista (fictícia) onde ele me responde com excertos retirados do livro. A quantidade de temas abarcados por Hume é tão extensa que, para além do que está transcrito abaixo, na sua leitura aprofundada podem contar com considerações acerca da nova forma de conceber o futebol, os atritos da comédia, as implicações do holocausto na liberdade de expressão, o direito ao esquecimento no mundo virtual e os avisos “Pode Ferir Suscetibilidades” como a nova religião do nosso século – entre muitos exemplos concretos dos reais problemas que a liberdade de expressão enfrenta hoje.

Por enquanto, fiquem com esta entrevista que nunca foi feita, mas que vale muito a pena ser lida.

Porque é que escreveu este livro?

Duas preocupações me levaram a escrever este livro. A primeira foi uma consciencialização do fosso cada vez maior entre o apoio teórico, retórico e ritualista que as sociedades ocidentais prestam à liberdade de expressão e a crescente disponibilidade para, na prática, a comprometer e restringir. O comportamento dos líderes políticos mundiais, que declararam “Je Suis Charlie” e, ao mesmo tempo, tentaram ilegalizar opiniões que consideravam ofensivas, ilustra bem esse fosso. A minha segunda preocupação era o facto de os ataques políticos e culturais à liberdade de expressão virem frequentemente não de extremistas islâmicos, mas de quem no Ocidente se considera liberal ou de esquerda.

O que visa exaltar com a sua publicação?

Este livro visa argumentar a favor da liberdade de expressão incondicional e do direito a ofender, dois princípios inegociáveis e essenciais para a resolução prática dos problemas que enfrentamos.
Esta tomada de posição implica defender incondicionalmente o direito de uma revista como o Charlie Hebdo a ofender quem lhe apetecer, sem “mas”, quer gostemos quer não. A verdade é que não temos de ser o Charlie, ler o Charlie e rir com o Charlie para o defender. A liberdade de expressão implica sempre, antes de mais, defender aquilo que certa vez o Supremo Tribunal dos EUA descreveu como a “liberdade para as ideias que odiamos”.

Porquê a insistência na Liberdade de Expressão?

Toda a gente enche a boca com a liberdade de expressão. Pouca gente parece pensar dois segundos no que ela significa ou na sua real importância. Por vezes é preciso recordarmo-nos das coisas óbvias e ver com novos olhos tudo o que tomamos por adquirido. […] A liberdade de expressão é o fator mais determinante para a criação e sustentação de uma sociedade civilizada. Sem o progresso da liberdade de expressão, a evolução do Ocidente, tal como o conhecemos, provavelmente não teria sido possível nos últimos 500 anos. […] Muitos dos grandes avanços científicos teriam sido impossíveis de alcançar antes de se ter conquistado a liberdade de expressar ideias e questionar as velhas “verdades” aceites.

O que significa a liberdade de expressão incondicional ou irrestrita?

Liberdade de expressão significa que o que outras pessoas dizem ou escrevem não tem de ser conforme ao que eu, o leitor ou quem quer que seja, prefira. Mau gosto ou bom gosto, ofensivo ou atrativo, mordaz ou aborrecido, o que importa é que seja livre. […] Defender a liberdade incondicional que a liberdade de expressão implica não equivale a endossar todas as coisas que se escrevam ou digam, por mais questionáveis ou idiotas. Ninguém tinha de considerar os cartoons do Charlie Hebdo perspicazes ou hilariantes para defender o direito de a revista os publicar. E também não significa ser dócil e sofrer em silêncio com os disparates dos outros. A liberdade de expressão também significa que somos livres de responder como bem entendemos.
A palavra “liberdade” na locução “liberdade de expressão” significa, isso sim, que ela se aplica aos idiotas, aos fanáticos e a todos – mesmo que queiram usar essa liberdade para argumentar contra ela. Como todas as verdadeiras liberdades, a de expressão é um direito indivizível e universal. Ou defendemos que é para todos ou que é para ninguém.
Recordar que a liberdade de expressão inclui a palavra “liberdade” torna clara a razão porque devemos opor-nos às tentativas de proibir ou restringir certas formas de expressão. A liberdade é, infelizmente, indivizível. Não há meia liberdade, liberdade a tempo parcial ou liberdade livre de gorduras. Não podemos abolir a escravatura só para quem é branco e famoso. Também não nos podemos declarar defensores da liberdade de expressão, mas só defender as partes de que gostamos ou que vão ao encontro dos nossos padrões, por muito bem-intencionadas que nos pareçam essas preferências. Mesmo que se prenda só uma perna ou um dedo gangrenado, é todo o corpo que fica agrilhoado.

O que é a “ego-expressão”?

Os atuais pseudo-defensores da liberdade de expressão advogam-na firmemente na teoria, mas tergiversam na prática. Isto traduz-se frequentemente em defendê-la para quem concorda com as atitudes e opiniões deles – trata-se de “ego-expressão” e não “livre-expressão”. O problema é agora ainda mais premente, porque tudo é julgado à luz dos padrões subjectivos da “ofensa” e as coisas podem ser censuradas ou proibidas não por perturbarem a ordem pública, mas por magoarem os sentimentos de alguém ou fazerem certas pessoas sentirem-se “desconfortáveis”. É impossível prever onde é que o comboio desgovernado da censura em nome da “ego-existência” terminará. O outro problema prático da “ego-expressão” é que, quando restringimos os direitos de liberdade de expressão de quem odiamos, enfraquecemos os nossos próprios direitos e os direitos de toda a gente. Negamos a todos o direito de ouvir e de argumentar, de testar a verdade e de avaliar por nós próprios. Condenamo-nos, na prática, a ficar fechados na nossa bolha, na nossa prisão, onde só ouvimos as nossas opiniões ou as opiniões de quem pensa como nós, como um prisioneiro numa cela solitária com um único livro para ler (que, para mais, é o seu aborrecido diário).

O que é a tolerância?

Quando nos esquecemos de que a liberdade de expressão é livre, também parecemos esquecer o que significa a tolerância. A tolerância não é permitir que qualquer pessoa desate aos impropérios, ofenda e insulte sem contestação, porque “toda a gente tem direito à sua opinião”. A verdadeira tolerância significa permitir que os outros expressem opiniões, por muito desagradáveis que elas sejam, e depois sermos, também nós, livres de lhes dizer o que pensamos delas – tal como os outros são livres de retribuir o elogio.

As palavras podem ser ações?

A segunda coisa de que nos esquecemos acerca da liberdade de expressão é que é “expressão”. São só palavras. As palavras podem ser ferramentas fortíssimas, mas não há palavras mágicas – nem sequer “abracadabra” – que, em si mesmas, possam mudar a realidade. As palavras não são ações. Logo, a liberdade de expressão não deve ser policiada como se se tratasse de uma infração criminal.
É verdade que “as palavras podem ser armas” numa batalha de ideias ou até numa simples troca de insultos. Mas, por mais aguçadas ou afiadas que sejam, as palavras não são facas. Por mais bruscas, as palavras não são tacos de beisebol. Por mais carregadas e velozes, as palavras não são armas de fogo. Não obstante, hoje em dia as palavras são demasiadas vezes tratadas como armas físicas.
As palavras podem magoar, mas não são armas físicas. E uma argumentação ou uma opinião, por mais agressiva ou ofensiva, não é um ataque físico. A diferença não é só semântica. Existem, e bem, leis contra ataques e ameaças de violência. Existem, e mal, muitas leis ou regras contra palavras usadas para expressar opiniões. A resposta correta a um ataque violento é pôr-lhe fim, com recurso à força se preciso for, e talvez prender o atacante. A resposta a palavras más não é acabar com a sua expressão e prender quem as profere. A resposta correta é mais palavras – para resistir ou simplesmente criticar as palavras a que nos opomos.
Se queremos distinguir devidamente as palavras das ações, temos de distinguir as palavras que são meras expressões – expressões de algo – das palavras que, pelo contrário, se tornam parte de uma ação – a execução de algo.

A liberdade de expressão não mostrou já a sua evidente necessidade?

Algumas lutas recentes pela liberdade e igualdade nas sociedades ociedentais também estiveram intimamente ligadas à liberdade de expressão. A exigência da liberdade de expressão, do direito das suas vozes serem ouvidas, revelou-se essencial na luta pela emancipação feminina, pela libertação homossexual e pela igualdade racial no Reino Unido e nos EUA. É triste e irónico que os atuais ativistas feministas, transexuais e antirracistas exijam restrições à liberdade de expressão, pretendendo com isso proteger os direitos dos grupos identitários que dizem representar. Sem os esforços de quem lutou por mais liberdade de expressão no passado, esses ativistas liberais não seriam livres de se mostrar e de pedir menos liberdade no presente.
Na sua vertente mais positiva, a liberdade de expressão possibilitou a liberdade de desafiar as crenças ortodoxas mais arreigadas do seu tempo, independentemente dos calos que se pudessem pisar. É por isso que a essência da liberdade de expressão é sempre o direito a ofender. Quem quer retirar aos outros o direito a abordar tabus, a ofender o consenso estabelecido e a ir contra a maré da opinião aceite não perderia nada a pensar onde estaria sem ele.

Porque é que o direito a ofender é importante?

Sejamos claros sobre aquilo de que estamos a falar. O direito a ofender não é a liberdade de soltar bufas num restaurante, beber demais e cuspir insultos na rua ou dirigir ofensas pessoais à mãe do papa ou de outra pessoa qualquer. Defender um argumento com paixão não implica necessariamente ser malcriado com quem falamos ou dizer asneiras. Mas o direito a ofender tem que ver com o que dizemos e não com a maneira como dizemos. Tem que ver com desfrutar da liberdade de questionar tudo; não aceitar o senso comum de olhos fechados; desafiar; criticar, atacar ou ridicularizar as opiniões ou crenças de alguém (na certeza de que a pessoa tem o direito de retribuir na mesma moeda).
É isto que torna essencial o direito a ofender. É esta a razão por que o direito a ofender foi essencial ao progresso humano e ao desenvolvimento da nossa cultura e sociedade ao longo da História moderna. O direito a ofender é, na verdade, a vanguarda, o coração, da liberdade de expressão e de imprensa. Que sentido teriam, afinal, essas liberdades se só fôssemos livres de dizer o que as outras pessoas gostassem?

O que é que John Stuart Mill nos ensinou?

Diz o génio vitoriano John Stuart Mill, no seu ensaio basilar Sobre a Liberdade: “Por conseguinte, a proteção contra a tirania da magistratura não chega; também tem de haver proteção contra a tirania da opinião e do sentimento prevalecentes; contra a tendência da sociedade para impor, por outros meios que não sanções civis, as suas ideias e práticas como regras de conduta a quem delas discorda.”
Ao esquecermos a liberdade de expressão, entregamos as rédeas aos que querem impor ideias conformistas enquanto “regras de conduta a quem delas discorda”. Seja qual for a apresentação e a desculpa, o resultado de se restringir a liberdade de expressão é sempre encerrar a discussão e enfraquecer tudo, até se chegar a um mundo de conformismo cinzento.
A difícil verdade é, sem dúvida, que um mundo onde usufruamos da liberdade de expressão incluirá tanto ideias feias, desagradáveis e dolorosas, como ideias boas e inspiradoras. Mas a alternativa é inevitavelmente pior. A liberdade de expressão tem um custo que vale sempre a pena pagar, e é demasiado importante para que seja defendida só da boca para fora.

Vivemos hoje uma pseudo-defesa da liberdade de expressão?

Se ignorarmos os insatisfeitos fãs do ISIS na Internet, que tendem a favorecer a censura da imprensa por via da decapitação de jornalistas, será difícil encontrar gente séria no mundo anglo-americano que rejeite publicamente o princípio da liberdade de expressão. Ninguém parece disposto a defender o princípio contrário: a “escravidão da expressão”.
É estranho, então, que tantas pessoas decidam exercer essa liberdade de expressão para enumerar às restantes aquilo que não podem dizer. Trata-se do segredo inconfessável da grande pseudo-defesa da liberdade de expressão. Os nossos políticos e figuras públicas encenam gestos de apoio à liberdade de expressão enquanto princípio. Na prática, porém, dão cabo dela.
Apesar de gozar de apoio generalizado em teoria, na prática a liberdade de expressão está sob ameaça. A liberdade de expressão é hoje como um animal exótico que toda a gente diz adorar mas que segue um caminho inexorável rumo à extinção. Os alicerces da liberdade de expressão encontram-se sob desgaste diário, enfraquecidos por uma irrigação constante de indignação.

Podemos, então, assumir há uma guerra silenciosa contra a liberdade de expressão?

A ameaça à liberdade de expressão não é nada de novo. O direito moderno à liberdade de expressão tem estado sob ameaça desde que foi conquistado. É sempre verdade dizer-se que “a liberdade de expressão está ameaçada”. Mas hoje em dia passa-se algo diferente. […] O perigo está agora também na contestação de quem se diz ser a favor da liberdade, mas na prática procura restringi-la. Trata-se de uma nova ameaça: a guerra silenciosa à liberdade de expressão.
É uma guerra silenciosa mas quem a trava não é discreto – na verdade, é tudo menos isso. Trata-se de uma guerra silenciosa porque ninguém que queira ser levado a sério admite que é contra o direito à liberdade de expressão. Em termos históricos, ser contra a liberdade de expressão significou ser a favor do fascismo, do totalitarismo e da queima de livros hereges, quando não de seres humanos hereges. Pouca gente gostaria de ser vista a par desses antecessores.
Assistimos então a uma guerra silenciosa à liberdade de expressão; uma guerra que não se anuncia e que é travada por pretensos censores que dizem ser tudo menos isso. O resultado não é uma repressão violenta nem uma censura bruta, mas a demonização das opiniões dissidentes, numa cruzada pelo conformismo. A guerra silenciosa […] é apresentada não como um golpe contra a liberdade, mas como uma defesa de direitos: o direito à proteção contra palavras e imagens ofensivas e odiosas; a libertação do assédio dos meios de comunicação social e dos trolls da Internet; o direito de os alunos se sentirem “confortáveis” nas universidades.

Quem são os contra-Voltaires?

Hoje em dia, contudo, assistimos à ascensão dos contra-Voltaires. O cri de coeur dos ofendidos primários que vira o princípio de Voltaire do avesso: “Sei que detestarei o que vais dizer e defenderei até ao fim da liberdade de expressão o meu direito de te impedir de o dizeres.” Os contra-Voltaires não desejam discutir ideias ou argumentos que os ofendem. Negam ao outro o direito de os expressar à partida.
Para os contra-Voltaires, nada é mais importante do que as suas emoções pessoais; nada é maior do que o seu ego ou identidade. O seu único critério para saber se uma coisa pode ser autorizada é a forma como ela os faz sentir (e, mais importante, como os faz sentir acerca de si próprios). Os contra-Voltaires não toleram que desafiem as suas opiniões, questionem os seus preconceitos, desrespeitem a imagem que fazem de si ou lhes pisem os calos. O resultado é exigirem limites à liberdade de expressão em nome do seu direito de serem protegidos pelas palavras.
Os contra-Voltaires são tão intolerantes para com os dissidentes quanto os fanáticos religiosos de outrora. Mas, ao passo que os padres de antanho baseavam a intolerância na autoridade presumivelmente objetiva de um supremo Deus exterior, os aspirantes a censores de hoje em dia baseiam a sua nos desejos subjetivos do seu ídolo pessoal interior. São muitas vezes narcisistas que só se veem a si com a diferença de que Narciso se apaixonou pela sua bela imagem placidamente refletida num lago límpido e eles estão apaixonados por uma imagem zangada, arrogante e permanentemente indignada, refletida nas águas turvas das redes sociais.
A ascensão dos contra-Voltaires, que insistem no seu direito a silenciar os outros, assinala uma contrarrevolução na postura ocidental perante a liberdade de expressão. Os contra-Voltaires reivindicam o direito a viver num casulo que os proteja do desconforto que lhes causa ver as palavras dos outros à solta. E não têm pejo em usar formas oficiais e não oficiais de censura para conseguir o que querem.

O que é que Sócrates e a Grécia Antiga têm a ver com tudo isto?

A experiência de Atenas ajudou, com efeito, a demarcar o campo das batalhas pela liberdade de expressão da era moderna. Antes de mais, com o julgamento e a execução do maior dos filósofos, Sócrates, que foi condenado à morte, aos 70 anos, por dizer coisas impertinentes.
Há muito que os estudiosos se perguntam como é que a pura democracia grega, alicerçada na promessa da liberdade de expressão para os seus cidadãos, pôde executar o mais sábio dos homens, à laia de criminoso, simplesmente por coisas que ele pensou e disse.
A resposta abreviada é que, ao que parece, Sócrates “foi simplesmente longe demais” no seu exercício da liberdade de expressão. Trata-se do filósofo que questionava tudo, muitas vezes para grande desconforto dos seus concidadãos, e se recusava a vincular-se às tradições sagradas e às divindades da sociedade ateniense. A acusação oficial contra Sócrates era de que ele “não acredita nos deuses em que a cidade acredita”. Heresia.
Sócrates lançou a pergunta que, a despeito de todas as mudanças ao longo dos séculos, ainda ocupa um lugar central nas guerras da liberdade de expressão: será que devemos ter o direito a ser hereges?
E se há algo que sempre nos valeu o rótulo de hereges é fazermos uma escolha intelectual. A heresia é o desejo de escolher aquilo em que acreditamos e divergir do dogma autoritário vigente. Haverá melhor razão para a liberdade de expressão?

O que são os trolls?

Ninguém sabe ao certo como definir um troll, mas toda a gente parece concordar que tem de se fazer alguma coisa com eles. Uma sondagem de outubro de 2014 concluiu: “Embora só 45 por cento dos adultos conheçam o termo troll, 28 por cento dos norte-americanos admitiram ter participado em atividades maliciosas na Internet dirigidas contra alguém que não conheciam.”
Como diz a página da Wikipédia dedicada ao assunto, num invulgar eufemismo: “O emprego do termo troll é subjetivo.” Há utilizadores da Internet rotulados como trolls por “ofensas” que vão desde expressar opiniões políticas impopulares, ou provocar adeptos de outra equipa num fórum de futebol, a lançar insultos sobre celebridades ou fazer ameaças delirantes de ataques sexuais e violência. Não passaria pela cabeça de ninguém, por mais febril que se encontrasse, considerar estas coisas “todas iguais”.
Diga o que disser um ministro ou um indivíduo mal-intencionado, e independentemente da quantidade de vezes que o repetirem, os ditos trolls da Internet estão de facto protegidos pela liberdade de expressão.
Os ditos trolls têm tanto direito quanto a Madre Teresa a dizer coisas de que as outras pessoas não gostam. Não têm, contudo, mais direitos do que eu, o leitor ou outro utilizador do Twitter a ser ouvidos ou levados a sério.
Os fala-barato e os profissionais da provocação têm de estar protegidos pala liberdade de expressão, protegidos contra a perseguição e a repressão, mas também podem, tal como um maluco que grita sozinho na paragem do autocarro, ser ignorados em toda a segurança. […] Não faltam leis contra as ameaças reais de violação, homicídio e agressões, portanto não há necessidade de medidas novas para criminalizar essas “atividades de troll”.

O que é uma “Zona de Livre-Expressão”?

Uma Zona de Livre-Expressão é um espaço específico reservado à expressão de opiniões e ideias, exposição de cartazes e distribuição de folhetos numa universidade. É, basicamente, uma área restrita em que os “dissidentes” políticos e religiosos se podem reunir para trocar os seus gracejos ofensivos sem magoar nem ofender os alunos decentes normais. No resto das instalações universitárias, porém, têm de obedecer aos restritivos códigos de expressão da universidade. Por outras palavras, essas zonas tornam o que devia ser a regra – a liberdade de toda a gente se expressar – numa exceção. Uma Zona de Livre-Expressão é como o canto dos fumadores, onde os inadaptados que não conseguem livrar-se do vício podem entregar-se ao hábito antissocial de dizerem o que pensam, hábito esse proibido em todos os outros sítios.

Ficar ofendido está na moda?

A cruzada contra o discurso ofensivo estende-se agora das graçolas provocatórias nas redes sociais a debates políticos entre os mais altos poderes. Ficar ofendido com um argumento contrário tornou-se uma reação instintiva e fácil que dispensa a incómoda necessidade de ter de se arranjar um contra-argumento. Reclamar que nos sentimos ofendidos por uma coisa que um opositor disse tornou-se um atalho para vencer um debate político – ou pelo menos pôr-lhe fim – independentemente dos méritos relativos das observações dos intervenientes.
Nas últimas décadas, as sociedades ocidentais perderam todo e qualquer sentimento de pertença forte a um sistema abrangente de crença que una as pessoas. As igrejas, os partidos políticos e outras instituições tradicionalmente unificadoras caíram em descrédito. As grandes ideologias tanto à esquerda como à direita, que dominaram o pensamento ocidental durante dois séculos, parecem esgotadas e irrelevantes para a vida da maioria das pessoas. Face a uma crise de coesão social e à ausência de um consenso moral, muitas pessoas continuam desesperadamente à procura de alguma coisa maior do que elas a que se possam agarrar. Na demanda dessa coisa, retraíram-se dos falhados projetos Políticos (com ‘p’ grande) que englobavam toda a sociedade e procuraram identidades culturais e políticas (com ‘p’ pequeno) mais segmentadas.
O debate moderno mais parece uma corrida ao armamento para ver quem se mostra mais ofendido. A política da identidade é a esfera da vitaminarão competitiva. Os grupos identitários vão buscar a sua autoridade moral a reivindicações de reparação por agravos e ofensas que sofreram, agora e no passado. Ao insistirem na ideia de que se está constantemente vulnerável e ao assumirem o papel de vítimas, os grupos reforçam a tendência para se ficar ofendido mediante qualquer opinião que saia da estreita mundivisão do grupo a que se pertence. Ficar ofendido é a arma perfeita para atacar a liberdade de expressão porque é, por definição, subjetiva.

Há, hoje, uma guerra declarada às palavras?

Antigamente, quando avaliávamos a linguagem de alguém, considerávamos, e bem, que o contexto e o intuito eram relevantes. As mesmas palavras podiam ter significados diferentes e ser avaliadas de forma diferente, consoante ocorressem numa discussão ou numa piada, em público ou em privado, numa reação intempestiva ou no contexto de uma ameaça real. Agora parece que as palavras podem ser vistas como inerentemente más, independentemente do contexto. A guerra às palavras arrisca-se a inibir a liberdade de expressão e a tornar as pessoas tão preocupadas com as boas maneiras linguísticas que não dizem o que realmente pensam e tão nervosas com a possibilidade de ofender alguém que falam com papas na língua. Isto não significa que se defenda o direito a lançar palavras racistas aos quatro ventos (embora seja ótimo que os extremistas revelem os seus preconceitos abertamente, para poderem ser desafiados em público). Significa, sim, lutar pela liberdade de expressão sem condições, enquanto direito inalienável e indivisível de todos.
Defender hoje a liberdade de expressão implica apoiar algumas personagens pouco agradáveis, mas tentar reprimir as palavras é simplesmente impor boas maneiras, um código discursivo snob para que “eles” falem como “nós”. Impor uma etiqueta ou ditar um código discursivo não é a mesma coisa que ter uma discussão e ainda menos ganhá-la. Significa dizer às pessoas o que devem dizer, em vez de conversar sobre o que elas pensam. Sempre senti que, em suma, o debate aberto e a clareza das opiniões ficam mais bem servidos quando os preconceitos das pessoas vêm ao de cima.

Quem são os novos “negacionistas”?

Antigamente, havia debates políticos, históricos e científicos. Quem tinha perspetivas alternativas era encarado como um adversário intelectual, a derrotar por via da discussão. Hoje em dia, quem questiona as perspetivas dominantes acerca de temas emotivos arrisca-se a ser acusado de “negacionismo”. E quem é apontado como “negacionista”, acusado de corromper deliberadamente verdades irrefutáveis, tem de ser silenciado ou até posto atrás das grades, e não incluído no debate.
Como é que a “negação” alcançou este estatuto de quase blasfémia secular? Uma tradicional definição de dicionário diz que negar envolve afirmar que alguma coisa “não é verdadeira ou não é sustentável”. Era isso que os pensadores pouco ortodoxos do passado faziam – negar a verdade de uma opinião aceite na sua época e expressar uma interpretação alternativa. O facto de até alguns cientistas de renome parecerem prontos a tratar os seus críticos como “negacionistas” que devem ser silenciados, e não como céticos a quem devem responder, confirma os perigos desta nova forma respeitável de intolerância. Continua a ser responsabilidade quer dos cientistas quer dos historiadores e dos jornalistas questionar tudo. A nova intolerância que pretende condenar os seus adversários por serem “negacionistas” e bani-lo sem vez de os desmascarar é, inegavelmente, uma desculpa modernamente perigosa e perigosamente moderna para atacar a liberdade de expressão e negar às pessoas a oportunidade de avaliar a verdade por si mesmas.

Os meios de comunicação social estão sob ameaça do politicamente correto?

A acusação alega que “as pessoas normais” são incapazes de lidar com o poder dos meios de comunicação social e da publicidade das empresas e que, portanto, ele tem de ser contido.
Os argumentos relativos à regulação da liberdade de expressão trocam-se agora num clima febril em que a imprensa popular e os meios de comunicação social de massas são retratados como arquivilões da sociedade. As pessoas “normais”, sem poder, não têm verdadeira liberdade de expressão, pois estão à mercê dos grandes meios de comunicação social, alega a acusação. É, talvez, um dos argumentos mais insidiosos – e cada vez mais influentes – para limitar a liberdade de expressão: a liberdade de imprensa é, na prática, “uma mentira”, porque só os mais ricos e poderosos dispõem realmente dessa liberdade, por via dos grandes meios de comunicação e do poder da publicidade empresarial. A exigência de restringir a liberdade de imprensa pode, assim, ser apresentada como progressista, dando uma desculpa aparentemente anticapitalista para justificar a censura e o controlo.
Nada disto, garantem eles, é um ataque à liberdade de expressão. Trata-se simplesmente de refrear a capacidade dos grandes meios de comunicação para espalharem mentiras e manipularem a opinião pública, seja na publicidade, seja nas campanhas eleitorais. O problema é que a estes ataques liberais à imprensa subjazem dois preconceitos iliberais. Está em causa uma fraca opinião sobre a importância da liberdade de imprensa. Houve pessoas que lutaram e defenderam essa liberdade durante cinco séculos, pessoas que se dispuseram a sofrer e até a morrer por essa causa, pois ela era a manifestação prática da liberdade de expressão. Toda a discussão acerca do regulamentação da imprensa no Reino Unido assenta hoje no mito de que a imprensa é “demasiado livre” e, por isso, causa problemas. A verdade é o contrário: a imprensa não é suficientemente livre e aberta.
A moda de culpar os meios de comunicação também se bacia numa fraca opinião acerca da população. Os ataques à influência dos grandes meios de comunicação são frequentemente uma investida disfarçada contra a inteligência das massas. Presume-se que as pessoas são crédulas e gananciosas ao ponto de poderem ser facilmente persuadidas pelos media a fazer coisas más, seja na caixa do supermercado, seja no boletim de voto.

Podemos voltar a falar de censura?

O que enfrentamos hoje na sociedade anglo-americana não é uma censura à moda antiga, mas novas formas de conformismo puritano. Paira um clima de proibição sobre muitas discussões públicas, onde a ameaça de ouvirmos “Não pode dizer isso!” Parece sempre prestes a concretizar-se ao mínimo deslize.
Num mundo onde reina tal confusão sobre o significado da linguagem e em que ninguém tem certezas sobre o que pode dizer, o perigo é que as palavras percam significado. Em vez de debates com sentido, vemo-nos envolvidos em exercícios vazios, procurando-se evitar palavras que ficaram desligadas da realidade. A obsessão com o uso de linguagem e de códigos corretos, em vez de dizer o que julgamos ser correto, resulta na auto-censura e em pedidos de desculpa em vez de clareza por via da argumentação.
Também corremos o risco de perder de vista novas maneiras de promover o saber humano. Como é que se pode florescer num clima em que há perguntas que não se podem fazer e argumentos que não se podem brandir?

(As ideias presentes nesta ‘entrevista’ são apenas uma pequena parte daquilo que o autor defende ao longo do livro que, para uma discussão mais aprofundada, deve ser lido antes de qualquer consideração castradora.)

TeresaRolla.com