Mick Hume: Os contra-Voltaires e a guerra silenciosa contra a liberdade de expressão

Julho 9, 2016/Excerto/3 min. a ler

Mick Hume, Direito a Ofender (Ed. Tinta da China, 2016)

A ameaça à liberdade de expressão não é nada de novo. O direito moderno à liberdade de expressão tem estado sob ameaça desde que foi conquistado. É sempre verdade dizer-se que “a liberdade de expressão está ameaçada”. Mas hoje em dia passa-se algo diferente. […] O perigo está agora também na contestação de quem se diz ser a favor da liberdade, mas na prática procura restringi-la. Trata-se de uma nova ameaça: a guerra silenciosa à liberdade de expressão.

É uma guerra silenciosa mas quem a trava não é discreto – na verdade, é tudo menos isso. Trata-se de uma guerra silenciosa porque ninguém que queira ser levado a sério admite que é contra o direito à liberdade de expressão. Em termos históricos, ser contra a liberdade de expressão significou ser a favor do fascismo, do totalitarismo e da queima de livros hereges, quando não de seres humanos hereges. Pouca gente gostaria de ser vista a par desses antecessores.

Assistimos então a uma guerra silenciosa à liberdade de expressão; uma guerra que não se anuncia e que é travada por pretensos censores que dizem ser tudo menos isso. O resultado não é uma repressão violenta nem uma censura bruta, mas a demonização das opiniões dissidentes, numa cruzada pelo conformismo. A guerra silenciosa […] é apresentada não como um golpe contra a liberdade, mas como uma defesa de direitos: o direito à proteção contra palavras e imagens ofensivas e odiosas; a libertação do assédio dos meios de comunicação social e dos trolls da Internet; o direito de os alunos se sentirem “confortáveis” nas universidades.

Raramente ouvimos alguém admitir que detesta a liberdade de expressão. Em vez disso, os cruzados arranjam uma maneira codificada de passar a mensagem, e o código pode mudar tão depressa como se fosse controlada por uma máquina Enigma (em vez de por uma assembleia da associação de estudantes).

Os que defendem a liberdade de expressão irrestrita não adoram necessariamente matar Bambis. Antes pelo contrário. A liberdade de expressão é a força vital de qualquer sociedade moderna e liberal. Por conseguinte, as tentativas de restringir a liberdade de expressão, por mais nobre que soe a argumentação, são sempre uma ameaça à liberdade que ajudou a tornar possíveis todos os outros direitos.

No clima intelectual moderno, por vezes parece que ofender os outros é o pior crime do mundo. A coisa é apresentada como uma tentativa progressista de proteger as pessoas de palavras que as magoam, mas tornou-se uma forma disfarçada de insistir que há demasiada liberdade de expressão. Pode parecer uma boa ideia viver num mundo acolhedor e maternal de insipidez inofensiva. O problema é que exigir o direito de não ser ofendido é negar a toda a gente a liberdade de ofender a ética e as opiniões aceites do tempo em que vive. E, sem essa subversiva liberdade de questionar o inquestionável – o direito a ofender -, a sociedade talvez nunca tivesse sequer chegado ao ponto em que os direitos antirracistas e das lésbicas, dos gays, bissexuais e transgénero se tornaram temas aceitáveis no debate público.

O escritor revolucionário François-Marie Arouet, conhecido pelo pseudónimo Voltaire, foi um pioneiro da liberdade de expressão na França iluminista do século XVIII. Atribui-se a Voltaire um dos maiores aforismos históricos sobre o assunto: “Discordo do que dizes, mas defenderei até à morte o direito de o dizeres.” [Esta frase é, na verdade, da autoria da biógrafa de Voltaire, Evelyn Beatrice Hall.]

Hoje em dia, contudo, assistimos à ascensão dos contra-Voltaires. O cri de coeur dos ofendidos primários que vira o princípio de Voltaire do avesso: “Sei que detestarei o que vais dizer e defenderei até ao fim da liberdade de expressão o meu direito de te impedir de o dizeres.” Os contra-Voltaires não desejam discutir ideias ou argumentos que os ofendem. Negam ao outro o direito de os expressar à partida.

Para os contra-Voltaires, nada é mais importante do que as suas emoções pessoais; nada é maior do que o seu ego ou identidade. O seu único critério para saber se uma coisa pode ser autorizada é a forma como ela os faz sentir (e, mais importante, como os faz sentir acerca de si próprios). Os contra-Voltaires não toleram que desafiem as suas opiniões, questionem os seus preconceitos, desrespeitem a imagem que fazem de si ou lhes pisem os calos. O resultado é exigirem limites à liberdade de expressão em nome do seu direito de serem protegidos pelas palavras.

Os contra-Voltaires são tão intolerantes para com os dissidentes quanto os fanáticos religiosos de outrora. Mas, ao passo que os padres de antanho baseavam a intolerância na autoridade presumivelmente objetiva de um supremo Deus exterior, os aspirantes a censores de hoje em dia baseiam a sua nos desejos subjetivos do seu ídolo pessoal interior. São muitas vezes narcisistas que só se veem a si com a diferença de que Narciso se apaixonou pela sua bela imagem placidamente refletida num lago límpido e eles estão apaixonados por uma imagem zangada, arrogante e permanentemente indignada, refletida nas águas turvas das redes sociais.

A ascensão dos contra-Voltaires, que insistem no seu direito a silenciar os outros, assinala uma contra-revolução na postura ocidental perante a liberdade de expressão. Os contra-Voltaires reivindicam o direito a viver num casulo que os proteja do desconforto que lhes causa ver as palavras dos outros à solta. E não têm pejo em usar formas oficiais e não oficiais de censura para conseguir o que querem.

TeresaRolla.com