Pastoral Americana, de Philip Roth

Junho 24, 2016/Review/3 min. a ler

Título: Pastoral Americana
Autor: Philip Roth
Editora: Dom Quixote
Ano: 1997
Páginas: 416
Nota: 17/20

Como não podia deixar de ser, mal acabei a última frase d’O Complexo de Portnoy já tinha o Pastoral Americana na estante à espera de ser lido. (Dificilmente consigo ler um só livro de um autor que me convoque as entranhas.)

Os dois livros não podiam ser mais diferentes entre si. Enquanto n’O Complexo de Portnoy vivemos numa completa ironia, no Pastoral Americana vivemos numa constante angústia. Os dois livros não podem ser comparados a não ser na mestria e excelência da escrita presente em ambos.

Pastoral Americana é um hino à América e ao Sonho Americano. É a controvérsia de um continente novo e multicultural que abarca todos os sofrimentos e todas as alegrias. É um hino à incompreensão humana e à solidão. É a vontade da vida a iludir a morte e a realidade da morte a atormentar a vida. É um questionamento constante sobre as respostas que nunca chegam. É o quebrar da inocência e a aceitação da decadência, da superficialidade e da crueldade. É saber que a verdade não existe e que cada um pode contar a que melhor lhe convier acerca de si próprio. É um comunismo tardio a lançar bombas contra um capitalismo paternalista. É o sistema no seu esplendor de antídoto da consciência. É a queda da Miss América e a construção do negócio das luvas. É a insustentável leveza da alma hipnotizada pelos neons do capitalismo. É a sujeição ao mundo e à falta de consolo. É a vida na sua mais crua e pura fragilidade.

Quando Seymour Levov, conhecido por todos como Sueco, vê a sua vida ser atravessada por um acontecimento fatídico, toda a história da humanidade pode ser posta em perspetiva. E é exatamente isso que Philip Roth faz nesta viagem pela América dos anos sessenta do século passado, onde “nem o mais tranquilo e bem-intencionado cidadão consegue escapar à vassourada da história”.
Por outro lado, Dawn Dawyer tem uma perspetiva completamente diferente sobre os acontecimentos e acaba por decidir que a melhor maneira de lidar com o sofrimento é ignorá-lo. A ele e a todos os que o lembrem.
No meio disto temos a causa viva da catástrofe – Merry – a criança doce e amada que se transformou num ser humano fanático e altamente destrutivo que vê na família a razão da sua decadência.

Pastoral Americana foi publicado pela primeira vez em 1997 e ganhou o Prémio Pulitzer, entre outros.

Rock and Rolla

Excerto

“Nós combatemos a nossa superficialidade, a nossa mesquinhez, para tentarmos chegar aos outros sem esperanças utópicas, sem uma carga de preconceitos ou de expectativas ou de arrogância, o mais desarmados possível, sem canhões, sem metralhadoras, sem armaduras de aço com dez centímetro de espessura; aproximamo-nos deles de peito aberto, na ponta dos dez dedos dos pés, em vez de estraçalhar tudo com as nossas pás de caterpillar, aceitamo-los de mente aberta, como iguais, de homem para homem, como se costuma dizer, e, contudo, nunca os percebemos, percebemos tudo ao contrário. Mais vale ter um cérebro de tanque de guerra. Percebemos tudo ao contrário, antes mesmo de estarmos com eles, no momento em que antecipamos o nosso encontro com eles; percebemos tudo ao contrário quando estamos com eles; e, depois, vamos para casa e contamos a outros o nosso encontro e continuamos a perceber tudo ao contrário. Como, com eles, acontece a mesma coisa em relação a nós, na realidade tudo é uma ilusão sem qualquer percepção, uma espantosa farsa de incompreensão. E, contudo, fazer com que esta coisa terrivelmente significativa que são os outros, que é esvaziada do significado que pensamos ter e que, afinal, adquire um significado lúdico; estaremos todos tão mal preparados para conseguirmos ver as acções íntimas e os objectivos secretos de cada um de nós? Será que devemos todos fecharmo-nos e mantermo-nos enclausurados como fazem os escritores solitários, numa cela à prova de som, evocando as pessoas através das palavras e, depois, afirmar que essas evocações estão mais próximas da realidade do que as pessoas reais que destroçamos com a nossa ignorância, dia após dia? Mantém-se o facto de que o compreender as pessoas não tem nada a ver com a vida. O não as compreender é que é a vida, não compreender as pessoas, não as compreender, não as compreender, e depois, depois de muito repensar, voltar a não as compreender. É assim que sabemos que estamos vivos: não compreendemos. Talvez o melhor fosse não ligar ao facto de nos enganarmos ou não sobre as pessoas e deixar andar. Se conseguirem fazer isso – estão com sorte.”

[Philip Roth, in Pastoral Americana]

TeresaRolla.com