O Complexo de Portnoy, de Philip Roth

Junho 15, 2016/Review/3 min. a ler

Título: O Complexo de Portnoy
Autor: Philip Roth
Editora: Dom Quixote
Ano: 1969
Páginas: 272
Nota: 18/20

Philip Roth nasceu em 1933, em Newark, EUA. É considerado, unanimemente, um dos melhores escritores norte-americanos da segunda metade do século XX. Ganhou inúmeros prémios literários e, em 2005, tornou-se o terceiro escritor vivo a ter a sua obra publicada numa edição completa e definitiva pela Library of America. Philip Roth anunciou em 2012, aos 79 anos, que ia deixar de escrever – o que significa que devemos aproveitar realmente cada página que ainda esteja por ler.

Conheci o Philip Roth quando precisei de um livro de bolso para levar para a praia (a leveza é essencial para conseguir ler ao sol!) e, mediante as poucas opções, comprei “O Complexo de Portnoy”.

Na altura não sabia bem o que havia de esperar e foi com um certo espanto que à terceira página me apercebi que estava maravilhada. Que destreza, que ritmo, que rapidez de pensamento… A forma como Philip Roth nos consegue fazer sentir que Alex Portnoy está a falar connosco é incrível e dificilmente igualável.

O Complexo de Portnoy é um monólogo onde nos são apresentadas diferentes personalidades pela voz de Alex Portnoy, em relação às quais nos é impossível ficar indiferente. Entre elas, há duas personagens femininas (a Mãe e a Macaca), que compõem grande parte da narrativa num misto de humor e hiper-realismo, que nos faz chegar às lágrimas (de riso!).

Alex tem 33 anos e um problema: é viciado em sexo. À partida parece-nos algo de fácil resolução, até se tornar impossível conviver com semelhante angústia.

O complexo de Portnoy lê-se de uma assentada semelhante é a mestria com que Alex nos convoca como seu ouvinte. Philip Roth conquistou-me total e irremediavelmente à primeira, o que me faz querer ler, o mais rápido possível, os 29 livros que restam.

 

Excerto

“O meu detalhe preferido do suicídio do Ronald Nimkin: ali pendurado no chuveiro, o jovem pianista tem um bilhete pregado à camisa de manga curta – que é aquilo que eu de melhor me lembro na figura do Ronald: um adolescente alto, emaciado e catatónico, a nadar sozinho naquelas camisas desportivas de manga curta, grandes de mais para ele, e com as lapelas tão bem engomadas e passadas a ferro que pareciam chapas blindadas… E o próprio Ronald, de membros tão retesados, tão solidamente presos à espinha que se uma pessoa lhe tocasse desatariam com certeza a vibrar… e os dedos, é claro, esses grotescos prolongamentos brancos e compridos, aí umas sete falanges, pelo menos, até se chegar à unha meticulosamente roída, essas mãos de Bela Lugosi que a minha mãe me dizia – e repetia – e tornava a repetir – porque não há nada que seja dito uma única vez – nada! – eram as mãos de um “pianista nato”.
Pianista! Oh, é uma daquelas palavras que elas mais adoram, quase tanto como médico, doutor. E internato. E acima de tudo consultório particular em Livingston. “Lembras-te do Seymour Trouxa, Alex?”, pergunta-me ela, ou então do Aaron Picha ou do Howard Caralho, ou de um totó qualquer que eu terei supostamente conhecido na escola primária há vinte e cinco anos, e de quem não guardo a mínima recordação. “Pois bem, encontrei hoje na rua a mãe dele, que me disse que o Seymour é hoje o maior cirurgião do cérebro de todo o hemisfério ocidental. Tem nada menos que seis casas de rancho com vários pisos, todas de pedra, em Livingston, e pertence ao conselho de onze sinagogas, todas novinhas em folha e desenhadas pelo Marc Kugel, e no ano passado ele, a mulher e as duas filhitas, tão lindas que até já têm contrato com a Metro, e tão inteligentes que deviam estar na universidade – levou-as a todas à Europa numa viagem de oitenta milhões de dólares a sete mil países, de alguns a gente nem sequer nunca ouviu falar, foram criados só para homenagear o Seymour, que em cada cidade da Europa que visitaram o presidente da Câmara em pessoa vinha pedir-lhe que se demorasse mais uns dias para fazer uma operação impossível ao cérebro, em hospitais construídos logo ali especialmente para ele, e – ouça só esta parte – onde passavam na sala de operações durante a operação a música do filme Êxodo, para toda a gente ficar a saber qual era a religião dele – por isso já estás a ver como o teu amigo Seymour é hoje importante! E a felicidade que ele dá aos pais!”

[Philip Roth in O Complexo de Portnoy]

TeresaRolla.com