M Train, de Patti Smith

Maio 25, 2016/Review/3 min. a ler

Título: M Train, Quetzal Ed.
Título Original: M Train
2015, Patti Smith

Patricia Lee Smith nasceu a 30 de Dezembro de 1946 em Chicago, Ilinois. O mundo conhece-a como Patti Smith desde 1970. Patti Smith é tudo menos convencional, ou não fosse uma lenda viva da geração beat.

Em 1967 mudou-se para Nova Iorque, onde conheceu Robert Mapplethorpe quando trabalhava numa livraria. O primeiro livro de Patti Smith, Just Kids(2010), é uma homenagem a Robert e a esses tempos de intimidade extasiante com a cidade de Nova Iorque e os génios que nela habitavam na época.

Em 1975 lançou aquele que seria o seu cartão de visita – o álbum Horses. Com este trabalho, Smith entrelaça a música e a poesia de uma forma tão única e sentida que dificilmente se consegue ficar indiferente.

Em 1976 conhece o músico Fred Sonic Smith, em Detroit. Os dois começaram uma relação à distância que culminou, dois anos depois, com a ida de Patti para Detroit e o início de uma relação de 17 anos ‘em família’. Fred morreu em 1994 vítima de um ataque cardíaco.

Em 1995 Patti decide voltar a Nova Iorque e à música e faz uma digressão com Bob Dylan em Dezembro desse ano. Patti Smith é hoje uma escritora, poetisa, cantora e activista política.

Em Maio de 2016 chegou às livrarias portuguesas o seu último feito: M Train. Como a própria nos diz, o livro é “um mapa das estrelas da minha vida”.

M Train leva-nos pela memória de Patti a lugares que fizeram parte da sua história. De Nova Iorque à Guiana Francesa, ao México e à casa de Frida Kahlo ou ao túmulo de Sylvia Plath em Yorkshire e de Jean Genet, em Larache, passando por Berlim e pelo Japão, acompanhamos a autora numa viagem interior, cheia de lugares e pessoas, escrita na solidão de um café novaiorquino.

Patti partilha connosco os diferentes tempos que uma vida tem e as mais variadas influências que pode entrelaçar. Como um relógio sem ponteiros que marca todas as horas invisíveis. E se o primeiro livro de Patti foi uma homeagem a Robert, este é uma homenagem a Fred, o homem que marcou outro dos tempos da sua vida e o único com quem casou.

No entanto, não se resume a Fred. Podemos encontrar-nos com Jean Genet, Albert Camus, Frida Kahlo, Jack Kerouac, William Burroughs, Roberto Bolaño, Alfred Wegener, Neil Young, Wittgenstein, Murakami, Maria Callas e muitos outros. Patti é exímia a inspirar-nos através da sua própria inspiração.

Não consigo escolher entre Just Kids e M Train, os dois livros são complementares e, neste caso, um segue o outro, cronologicamente. Dos sonhos da inocência aos sonhos da experiência Patti Smith faz-nos gostar de (a) ler. E que mais se pode pedir a um escritor?

Rock and Rolla

Excerto

“As coisas que perdemos choram por nós? As ovelhas eléctricas sonham com o Roy Batty? Será que o meu casaco cheio de buracos se vai lembrar dos momentos maravilhoso que passámos juntos? Dormir em autocarros de Viena a Praga, noites na ópera, passeios junto ao mar, o túmulo de Swinburn na Ilha de Wight, as arcadas de Paris, as cavernas de Luray, os cafés de Buenos Aires. Uma experiência humana entrelaçada nos seus fios, Quantos poemas sangram das suas mangas esfarrapadas? Distraí-me dele por um momento, atraída por outro casaco mais quente e mais macio, mas de que eu não gostava muito. Porque perdemos as coisas que amamos e coisas que nos são indiferentes se agarram a nós, podendo tornar-se, depois de morrermos, símbolos do valor que tivemos?”

[Patti Smith, in M Train] 

TeresaRolla.com