Cidade em Chamas, de Garth Risk Hallberg

Abril 11, 2016/Review/3 min. a ler

Título: Cidade em Chamas, Ed. Teorema
Título Original: City on Fire
2015, Garth Risk Hallberg

Cidade em Chamas chegou às livrarias como recordista do maior avanço monetário da história. Garth Risk Hallberg recebeu 2 milhões de dólares adiantados para escrever o livro e até os direitos cinematográficos já estão vendidos. O livro era esperado com alguma ansiedade visto que era do conhecimento público que viria aí um livro-sensação. Garth começou a escrever o romance aos 26 anos e demorou 6 anos a concluí-lo. É conhecido como crítico e ensaísta norte-americano e esta foi a sua primeira aventura no mundo da grande literatura. Vive atualmente no Brooklyn com a mulher e os dois filhos.

Cidade em Chamas leva-nos de imediato para uma Nova Iorque de finais do século XX e só este facto já me faria querer ler o livro. Na verdade acho que o autor sabia bem a aura que estava a querer ressuscitar ao escrever um romance sobre aquela cidade e aquela época em específico. E é exactamente o tamanho da envergadura e da ambição que nos fascina.

Além de estar muito bem escrito o livro passa por diferentes tons da sociedade com que todos nos identificamos. Desde a alta de Manhattan a uma casa ocupada por um grupo de punks pós-humanistas, aos problemas familiares de uma ‘família normal’, ao mundo da alta finança passando por um quarto de adolescente e por um ‘artesão do fogo’, o romance leva-nos a lugares e a tempos que nos convocam.

A trama passa-se em meio ano, mas isso não é claro ao início. A narrativa anda constantemente para trás e para a frente no tempo, englobando as décadas de ’60 e ’70, mas a acção propriamente dita acontece entre Janeiro e Julho de 1977. Há um assassínio em Nova Iorque na última noite do ano de 1976 e, a partir daí, tudo muda.

Cidade em Chamas começa com a perspectiva de Mercer Goodman, um professor negro e homossexual oriundo do sul dos EUA que, por acaso, é namorado de William Hamilton-Sweeney III, um guitarrista e cantor de uma banda punk chamada Ex Post Facto, mais conhecido por Billy-Três-Riscos, que decidiu cortar relações com a poderosa família a que pertence. Samantha Cicciaro, por outro lado, pode ser considerada a personagem principal do livro. Tem 17 anos mas assume que tem 19 para manter uma relação com um homem mais velho e casado. O melhor amigo de Sam (e seu eterno apaixonado), Charlie Weisbarger, é outra das personagens centrais da narrativa e a que nos coloca na perspectiva mais artística da obra – é através de Charlie que chegamos a Patti Smith e a David Bowie. Temos ainda Reagan, a irmã mais velha de William, que transmite na perfeição a perspetiva de uma família desconexa nos seus mais variados aspectos e que, a pouco e pouco, se vai apoderando da história.

Garth foi ambicioso em diversos aspectos e talvez tenha sido esse o seu pecado. Cidade em Chamas tem quase tudo para ser o livro do ano, mas não é. Há demasiada mistura de ingredientes para sentirmos o equilíbrio da narrativa. Há demasiadas personagens que não são tão relevantes como o autor nos quer fazer pensar e há um esconder propositado e prolongado de factos que, no fim, não se justifica. No entanto, e apesar de todos estes apontamentos, Garth escreveu um bom livro que nos cativa a atenção e que nos faz ter vontade de ler.

A trama de Cidade em Chamas é intrincada e cheia de pormenores e daí talvez tenham surgido algumas críticas menos favoráveis, mas ninguém consegue negar que é um projecto de uma envergadura imensa que demonstra um talento considerável.

Rock and Rolla

Excerto

” – Mas porque é que as alternativas têm que ser ou a ditadura das empresas ou os gulags? – interveio Jenny, exasperada. Ficava-se com a sensação de que ela teria acabado com a discussão em três segundos, se os homens se tivessem dado ao trabalho de a convidar a participar. E talvez por isso mesmo não o tenham feito.
– Só que neste caso trata-se de sonhos húmidos e não de pesadelos. A América não está longe do totalitarismo, Bruno. Tu é que gostas do perfume que ela usa, só isso.
– Só um americano diria uma coisa dessas.
– Olha à tua volta. É o final da semana e como é que exprimimos a nossa insatisfação com o sistema? Vamos a um restaurante e queixamo-nos enquanto bebemos um vinho barato. Armamo-nos em aspirantes à burguesia, não vá acontecer alguma coisa à verdadeira. Repugna-me dizer isto, mas estou do lado do Nicky Caos neste ponto. Ter variedade de escolha não é a mesma coisa que ter liberdade… não quando é outra pessoa qualquer que determina essas escolhas e não nós.
Mercer teve a sensação desconfortável de ser uma espécie de exemplo ilustrativo de um argumento qualquer. O guardanapo no seu colo estava manchado como uma bata cirúrgica. O que pensariam os pais das suas alunas daquilo tudo?
– E, William, ao bem-estar geral tu preferes… um ideal qualquer platónico de liberdade.
– Como é que a anarquia podia ser pior para o bem-estar geral do que isto? Pois eu digo deixem a cidade ir à falência, os prédios cair, a erva apoderar-se da Quinta Avenida. Deixem os pássaros fazer ninho nas fachadas das lojas e as baleias nadar pelo Hudson acima. Podemos passar as manhãs à caça de comida e as tardes a fornicar e à noite dançaremos nos telhados das casas e cantaremos paz paz para o céu.
– Então para quê abandonar a banda se tens tantas afinidades com o Nicholas?
– Posso concordar com ele em algumas coisas e, no entanto, continuar convencido de que ele é basicamente um sociopata.
– Num mundo sem leis quem manda são os sociopatas. Os Estalines, os Maos, tu sabes disso William.
– O que é que acha Mercer? – interveio Jenny; ele não percebeu se ela estava a tentar fazer-lhe um favor, integrando-o na conversa, ou a repreendê-lo por não ter tido o mesmo gesto para com ela. O jazz dissonante que vinha da cozinha calara-se de repente. Três pares de olhos pousaram nele.
– Eu julgo que pode ser verdade – começou cuidadosamente – o que o Bruno está a dizer, pelo menos na minha maneira de ver as coisas. Mas isso não significa que não seja deprimente. Se podemos dizer tudo o que nos apetece na América é porque sabemos que não faz diferença nenhuma.”

TeresaRolla.com