Eutanásia, essa palavra que mata…

Março 31, 2016/Blog/2 min. a ler

Não será por acaso que é neste início de século que esta discussão vem à tona. Vivemos no tempo em que o dia não tem horas suficientes. Vivemos no tempo em que o próprio tempo se tornou um bem precioso. Vivemos no tempo em que temos medo de não ter tempo. Vivemos com tanta pressa de chegar ao próximo objectivo que nem reparamos no caminho que fazemos. Andamos em piloto automático atrás de sonhos que, por todo o lado, nos dizem estar ao nosso alcance. E continuamos, sempre em frente, porque nunca como hoje parar foi tanto morrer.

E é exactamente no meio dessa montanha russa em que vivemos que, muitas vezes, somos confrontados com a crueza de estar vivo – o diagnóstico que nos diz que vamos morrer, antes, muito antes do que pensávamos.
E é aqui, neste século dos medicamentos milagrosos, das rádio e das quimioterapias e, acima de tudo, dos cuidados paliativos, que nos parece errado aceitar ter que sofrer, no fim.

O que podemos fazer quando mais nada resta a não ser a esperança de um sofrimento que não pára de aumentar? Quando as forças nos começam a faltar e o mundo passa a ser uma mancha difusa entre a consciência e a inconsciência e deixamos, aos poucos, de conseguir falar – a dignidade vai-se num sopro quando nos apercebemos que somos apenas um protótipo de um ser-humano deitado numa cama. Mas continuamos ali, à mercê de quem ainda não desistiu de nós ou, ainda pior, sozinhos. Como numa sala de espera onde as paredes são feitas de agonia, até à libertação final.

E é em alturas como esta, em que o sofrimento é maior do que nós, que não se pode negar ajuda a quem a pede. Pedir ajuda para morrer nunca pode ser tido como um pedido normal, mas pode, e deve, ser tido como uma possibilidade para quem o faz em casos extremos. E, diga-se de passagem, a eutanásia não vai estar à venda nas farmácias, ela só engloba estes casos – por muito que os opositores da ideia nos assustem com a possibilidade de um ‘genocídio’ em massa.

O problema da eutanásia é que além de ser uma questão ética, é uma questão pessoal, uma questão médica, uma questão social, uma questão económica, uma questão legal e mais uma série de questões que abarcam um enorme raio de potenciais intervenientes que tornam todo o processo demasiado complexo para que se possa assumir o que quer que seja como ponto de partida. Neste caso dissipamos todas as dúvidas: estamos a falar de sofrimento.

Não vamos ser hipócritas e achar que todo o sofrimento é erradicado para quem tem acesso aos cuidados paliativos porque isso não é verdade, como facilmente pode comprovar quem quiser passar umas horas à cabeceira de um doente em estado terminal numa ala destas de um qualquer hospital. Ninguém no seu perfeito juízo pode negar a importância extrema dos cuidados paliativos, mas a triste realidade é que, além deste tipo de cuidados não estar acessível a todos os que deles precisam – não têm poder para garantir que o sofrimento seja totalmente erradicado. Sendo assim, se não podemos garantir a todos uma “morte doce”, entendida aqui como a prevenção do sofrimento corrosivo e dilacerante, o que nos resta fazer quando não há nada a fazer? Afinal, é preciso aceitar que, às vezes, não há mesmo nada a fazer. E só nestes casos, extremos, é que nos é permitido fazer alguma coisa ou, pelo menos, devia ser.

O facto de poder ou ter que envolver uma terceira pessoa (no caso do suicídio assistido é alguém que proporciona ao doente o “medicamento letal” mesmo que seja este quem o acabe por ingerir sozinho), é muitas vezes o ângulo mais controverso da questão. Quem deverá ser responsável por esta prática? Os médicos? Mas se todos eles, para poderem exercer a prática da medicina fizeram um juramento, no qual se comprometem a preservar a vida acima de tudo, como resolver a questão de permitir, legalmente, que o façam? Este é apenas um dos focos da discussão mas podemos facilmente enumerar mais uns quantos: como podemos garantir que um pedido de eutanásia é sincero e reflectido? Como podemos assegurar a não interveniência de factores externos como a pressão social, familiar ou até económica? Como podemos estar certos de que não existirão usurpações da lei? São muitas as cautelas necessárias a ter em conta quando falamos de eutanásia ou suicídio assistido, mas nem não será por isso que devemos desistir à partida.

Vivemos no tempo em que afastamos, de várias formas, a morte do nosso quotidiano. Mas há alturas em que precisamos mesmo de pensar nela. E assim como assistimos, nos últimos 50 anos, a uma mudança radical na nossa relação com o sexo, com a religião, com a procriação e a família, não será de estranhar que queiramos mudar a nossa relação com a morte. Talvez pensar mais nela em vez de fingir que não existe seja um passo no caminho da possibilidade de escolha. Afinal, quem melhor do que nós próprios sabe o nível de dignidade com que quer acabar esta viagem?

Teresa Rolla

TeresaRolla.com