Sabemos à partida que o conceito de liberdade é difícil de definir. Afinal, até que ponto podemos considerar que somos realmente livres? Percebemos muito facilmente que não somos assim tão livres quando pensamos em tudo o que temos que fazer para sobreviver. Ou quando o despertador toca, de manhã, e proíbe automaticamente a liberdade de um sono profundo. É certo que se pode argumentar que a liberdade está lá, em último caso, nós é que decidimos despertar àquela hora mas, então, somos obrigados a admitir que ter liberdade não é sinónimo de fazer tudo o que se quer. E é aqui que os problemas começam.
O que é então a liberdade? É, antes de tudo o mais, a possibilidade de escolha. É poder escolher o que fazer com a própria vida, sem qualquer tipo de interferência externa, e assumir a responsabilidade dessa escolha. Ora, para podermos escolher precisamos de estar informados acerca das alternativas que temos, daí ser essencial o acesso à informação numa sociedade democrática que é, por definição, uma sociedade livre. E para que essas informações sejam fidedignas precisam de estar ao abrigo da liberdade de expressão que nos garante a isenção de censura. Chegámos então ao núcleo duro da questão. A liberdade de expressão é necessária para que possamos ser livres.
Como diz Nigel Warburton: “A marca de um regime totalitário é a ausência de liberdade de expressão”. Não assistimos já a todos os malefícios que a falta de liberdade de expressão acarreta? Sendo assim, porque é que ainda estamos a discutir este assunto no início do século XXI? Na minha humilde opinião o mundo apercebeu-se, de repente, do desnorte que a pós-modernidade criou com a disseminação do individualismo e decidiu adoptar uma postura pública politicamente correcta, como se isso apagasse o vazio instalado pela ausência de certezas. Qual é a solução mais fácil e acessível? Defender uma causa acima de tudo e de todos, qualquer coisa serve desde que proporcione uma sensação de pertença a um grupo, desde que ofereça uma identidade que não nos obrigue a escolher nem a deliberar sobre essa escolha.
É por isto que houve em tempos filósofos que consideraram a liberdade uma fonte de angústias. O ser humano sente-se perdido quando todas as escolhas lhe são possíveis e, mais ainda, quando tem que assumir a responsabilidade por qualquer opção que tome. É, então, natural que muitos optem por se esconder atrás de ideias caducas e dogmáticas facilmente aceites pelos polícias do politicamente correcto. Afinal, assumir a responsabilidade pelas próprias decisões exige que se saiba defender de forma profunda essas mesmas escolhas e isso é muito mais fácil quando já há toda uma empresa criada por trás. Ser só mais um discípulo do marketing do fica bem dizer isto é muito mais fácil do que defender ideias que desafiam a moralidade vigente. No entanto, o que a história prova é que normalmente são estas que nos salvam. A liberdade de expressão tem valor pelo desafio que cria ao mundo, pelo questionar de dogmas que proporciona no confronto de ideias e pela abertura que possibilita ao pensamento.
Ser Charlie, ao contrário do que se pensa correntemente, é difícil! Ser Charlie implica pensar no mundo como um todo, implica sair da própria bolha. Ser Charlie exige, muitas vezes, estar contra a corrente do mundo, contrariar estereótipos e questionar a realidade aceite pela maioria. Ser Charlie é difícil porque nos obriga a pensar em coisas que preferíamos ignorar ou, por outras palavras, obriga a avestruz a tirar a cabeça da terra. Ser Charlie é difícil, mas quantas coisas fáceis mudam o mundo? Muito poucas.

Para sempre Charlie.

Teresa Rolla

TeresaRolla.com