A Minha Luta, de Karl Ove Knausgard

Fevereiro 11, 2016/Review/3 min. a ler

Hexalogia “A Minha Luta” © Relógio D’Água Editores (2014)
Livro 1: A Morte do Pai
Livro 2: Um Homem Apaixonado
Livro 3: A Ilha da Infância
Karl Ove Knausgård, 2009

Foi em Maio de 2015 que a Revista semanal do Expresso trazia um homem desconhecido (para mim) na capa. Fiquei intrigada. Ainda por cima apresentavam-no como a nova revelação literária escandinava. Fiquei curiosa. As páginas do meio da revista estavam recheadas com uma entrevista que, ainda hoje, depois de a reler, cria em mim uma sensação de reverência perante o autor.
Knausgård nasceu a 6 de Dezembro de 1968, em Oslo, Noruega. Estudou História da arte e Literatura na Universidade de Bergen. Editou o primeiro livro em 1998 ( ainda não se encontra traduzido em português), e tornou-se mundialmente conhecido através da série de 6 extensos volumes autobiográficos intitulada “A Minha Luta”.

Karl Ove é tudo o que podemos pedir a um autor. Entra na nossa vida com a facilidade de alguém que achamos que conhecemos desde sempre e vicia-nos nessa proximidade que se desenvolve a cada página que viramos. Knausgård é sublime a fazer-nos recordar a nossa própria vida, de uma maneira tal que me faz acreditar em magia literária. Nunca um autor me recordou tantas coisas sobre a minha infância e adolescência, é como se no particularismo da história que ele escreve se encontrassem os nossos próprios particularizamos.

E mesmo quando tudo parece diferente, como as paisagens escandinavas e as relações sociais nórdicas, é como se houvesse um humano que não difere assim tanto geograficamente. Dá-nos a sensação de que os medos e as alegrias são tão partilhados como a fisionomia humana, independentemente da parte do mundo em que estejamos.

Knausgård arriscou como autor, centrou-se em si e ignorou tudo o resto. Confessou tristezas e descreveu alegrias que muitos de nós esconderíamos para sempre. É um escritor do eu que se multiplica pelos eus que o lêem. E é magistral na forma como o faz. É diferente do habitual, é alguém sem reservas que nos acolhe nessa sinceridade que raramente se encontra num romance.

Ainda só vou a meio d’A Minha Luta mas sabemos que um autor é bom quando a espera por um novo livro custa a passar.

Excerto

“À medida que a perspectiva do mundo se amplia não diminui apenas a dor que ela causa mas também o significado que tem. Compreender o mundo exige que se mantenha uma certa distância dele. Ampliamos coisas que são demasiado pequenas para serem vistas a olho nu, como moléculas e átomos. Reduzimos coisas que são demasiado grandes, como nuvens, deltas de rios e constelações. Só fixamos o mundo quando o temos ao alcance dos nossos sentidos. A essa fixação chamamos conhecimento. Durante a nossa infância e juventude lutamos para manter a distância correcta das coisas e dos fenómenos. Lemos, aprendemos, experimentamos, corrigimos. Então, um dia, chegamos ao ponto em que todas as distâncias necessárias foram determinadas, todos os sistemas necessários foram estabelecidos. É aí que o tempo começa a acelerar. Já não encontra qualquer obstáculo, está tudo determinado, o tempo passa rapidamente pelas nossas vidas, os dias sucedem-se num piscar de olhos, e, antes de que nos apercebamos do que está a anoitecer, temos quarenta, cinquenta, sessenta anos… O sentido requer conteúdo, o conteúdo requer tempo, o tempo requer resistência.”

[Karl Ove Knausgard, in A Morte do Pai]

TeresaRolla.com