Para que serve o Facebook?

Fevereiro 9, 2016/Blog/5 min. a ler

Há uns dias larguei aqui uma pergunta concreta na tentativa de encontrar uma resposta igualmente concreta sabendo, à partida, que isso seria quase impossível.

Mas, afinal, para que serve o Facebook?

Entre o nada e o tudo são milhares as formas de estar na vida que se encontram neste livro de caras sem fronteiras.

Entre uma plataforma de encontro com amigos distantes ou uma plataforma de engate, o facebook serve mesmo para quase tudo:

1. “Para tirar fotos de onde se está e fazer textões.”
2. “Para o que cada um quiser fazer dele.”
3. “Ninguém sabe.”
4. “Para fazer perguntas.”
5. “Para alimentar o ego.”
6. “Para bloquear humoristas.”
7. “Para acentuar rivalidades clubísticas e ver gente que perdeu a noção do ridículo.”
8. “Para estar actualizada em relação aos temas que gosto: viagens, restaurantes, espectáculos, etc…”
9. “Para distrair a mente, falar com mais frequência com amigos que de outra forma não teríamos tanto tempo. Trocar opiniões com colegas. Rir e fazer novas amizades.”
10. “Para manter o contacto com amigos que estão longe e essencialmente para ajudar a matar o tempo quando estamos a coçar a micose.”
11. “Para tudo ou para nada.”
12. “Ocupação de tempos livres. Unir amigos e destruir relações é outra vertente.”
13. “Para alimentar a empáfia, a vaidade e a vulgaridade dos cabotinos que gostam de dizer mal do facebook.”

Treze respostas concretas e a dúvida continua. Afinal, se o Facebook fosse isto era um mar de rosas, qualquer coisa como o Jardim do Éden na Terra.

E o problema do Facebook é exactamente este: as pessoas acham que estão numa arena espacial que dominam, onde são donas e senhoras da verdade e onde se desfazem do verdadeiro eu para assumir um eu público cheio de qualidades e muito poucos defeitos. No Facebook somos todos lindos e maravilhosos, somos todos adeptos do bom, somos todos moralmente activos e cheios de ideais de perfeição. Só não tiramos fotos à Bíblia porque está fora de moda mas qualquer Dalai Lama Meme serve para apregoar o bem contra o mal.

O problema do Facebook é exactamente o mesmo que fora dele, a diferença é que no Facebook se nota mais a falta de qualidade e a pequenez do pensamento das nossas sociedades. Fora do Facebook não temos tempo nem paciência para certas pessoas e muito facilmente delineamos a nossa conduta de forma a não nos cruzarmos com essas entidades. Enfiámo-las em guetos sociais mais ou menos circunscritos e pura e simplesmente deixamos de achar que existem. (De outra forma seria quase impossível sobreviver em sociedade!) No Facebook, pelo contrário, por muito que usemos o “não quero ver mais publicações deste utilizador” há sempre alguém que revela o seu esplendor moral acrítico e dogmático nas mais triviais actualizações de estado. E só nos resta aceitar.

Ora, o verdadeiro problema de toda esta confusão é que a maioria das pessoas não percebe que só lhe resta aceitar a pluralidade do mundo. A maioria destas pessoas acha que, lá porque tem acesso a milhares de entidades virtuais (vulgo: amigos) que de outra forma seria impossível, pode criar uma religião (vulgo: causa que fica bem representar) que se apoia no lifestyle do politicamente correcto e só aceita determinados posts inofensivos na rede. Tudo o resto vai directamente para a máquina de censura que, neste caso, não é mais do que um grupo criado por estes novos Padres virtuais de forma a garantir que todos pensam da mesma maneira (o que lhes dá a sensação de certeza e verdade do que apregoam) e que se dedicam exaustivamente a bloquear mentes fora da caixa. Já aconteceu isto na realidade não já? Era a Inquisição não era? Metia fogueiras e fanatismo ao mais alto nível não era? Pois, o problema do Facebook é este: serve para formar grupos locais de estupidez conjunta que, ao nível da realidade, se podem assemelhar a religiosos fanáticos que desprezam a razão em detrimento da pertença ao grupo.

O Facebook serve para dizer ao mundo onde estamos, serve para mostrar o que comemos e fazer textões; serve para o que cada um quiser fazer dele embora a maioria prefira ser uma cópia do colega do lado; chego a achar que ninguém sabe realmente para que serve mas entretanto serviu para fazer perguntas e alimentar o meu ego de respostas; serve para despejar rivalidades clubísticas e para presenciar falta de noções do ridículo, para estar actualizada em relação aos temas que gostamos e para distrair a mente; serve, melhor do que qualquer outra ferramenta para sabermos de amigos que estão longe, trocar opiniões, rir e fazer novas amizades; serve para matar o tempo e serve, literalmente, para tudo e para nada dependendo do que queiramos entender por tudo e nada; serve para destruir relações que afinal não eram assim tão sólidas e para acentuar a vaidade do eu que se projecta para o mundo; serve para tudo isto e tudo isto é legítimo. A ilegitimidade do Facebook acontece quando não se aceita a pluralidade do mundo e se usa a rede como quem usa uma religião. Acontece quando se usa o Facebook para retirar a liberdade de expressão aos outros quando ignorá-los está ao nosso alcance mas preferimos censurar, esmigalhar e denunciar. Quando ao apregoar o bem não apregoam mais do que um velho mal. E quando bloqueiam gratuitamente e durante meses o trabalho de uma minoria tão essencial como o humor.

Teresa Rolla

TeresaRolla.com