A Piada Infinita, de David Foster Wallace

Fevereiro 4, 2016/Review/3 min. a ler

Título: A Piada Infinita, Quetzal Ed.
Título Original: Infinite Jest
1996, David Foster Wallace

David Foster Wallace nasceu a 21 de Fevereiro de 1962 em Ithaca, Nova Iorque. Filho de um professor de Filosofia e de uma professora de Literatura Inglesa, Wallace viria a ser conhecido como um prodígio da literatura americana.

Durante a adolescência DFW foi jogador de ténis federado e essa experiência está bem patente naquela que seria considerada a sua melhor obra. Formou-se em Filosofia, com foco em lógica modal, cuja tese final lhe valeu um prestigiado prémio académico. O seu gosto pela matemática fez com que em 2003 publicasse “Tudo e Mais Alguma Coisa: História Compacta do Infinito”, um livro que muitos matemáticos consideraram excêntrico e os leigos na matéria não conseguiram ler. Fez ainda um mestrado em escrita criativa na Universidade do Arizona que lhe valeu a publicação do seu primeiro romance “The Broom of the System” (1987).

DFW escreveu contos e ensaios sobre os mais variados assuntos. Um destes ensaios é um êxito de visualizações no youtube, aquando de uma palestra de Wallace no Kenyon College, intitulada “This Is Water”.

Em 1991 começou a escrever aquela que seria a sua maior e melhor obra, que lhe valeu os maiores e melhores elogios. Wallace demorou cinco anos a escrever “A Piada Infinita”. O livro foi publicado pela primeira vez em 1996.

DFW suicidou-se a 12 de Setembro de 2008, aos 46 anos. Era do conhecimento público que sofria de depressão há mais de vinte anos, o que lhe valeu algumas passagens por hospitais psiquiátricos, que não deixou de fora das suas narrativas. No fundo, talvez todos estes factos estejam diretamente relacionados com a personalidade idiossincrática que fez dele, para alguns, o escritor mais significativo da sua geração.

A Piada Infinita é um livro incomparável e, só por isso, já se torna difícil falar sobre ele. Nos tempos em que não havia internet e os leitores estavam confinados à informaçao presente no livro é possível que este fosse considerado um livro obscuro. Wallace obrigou-me a pesquisar muito, tanto a sua vida como o que sobre si foi escrito e, no fim, é impossível não considerar que estamos perante um génio literário.

A Piada Infinita tem 1198 páginas, das quais 96 são notas de rodapé que, em muitos casos, são tão importantes como o próprio texto. Começando pelo princípio, a ação decorre num tempo futuro em que o México, o Canadá e os EUA formam um único país descrito pela sigla ONAN. O facto destes países estarem reunidos sobre o mesmo governo não faz deles mais pacíficos entre si, muito pelo contrário. Por alguma razão que não é explícita, todos os resíduos tóxicos do país vão parar ao território canadense, o que faz com que exista um grupo separatista do Quebeque intitulado “Assassinos das Cadeiras de Rodas”. Afinal, quem é que desconfia de utentes de cadeiras de rodas?

Outra das particularidades deste futuro é o facto de os calendários terem deixado de ser como os conhecemos. Cada ano é patrocinado por uma marca diferente que assume o nome desse ano, por exemplo: Ano da Roupa Interior para Adultos Depend, Ano do Penso Medicinal Tucks, Ano da Tablete de Chocolate Dove de Tamanho Experimental, Ano do Whooper, etc. O engraçado é que, no fim, conseguimos facilmente obter uma cronologia.

As personagens principais do livro condizem com tudo o resto, isto é, são extremamente idiossincráticas. O núcleo principal é constituído pela família Incandenza que engloba os três jovens Orin, Hall e Mario, filhos do casamento de James Incandenza com Avril Travis. A família alberga ainda no seu núcleo duro o irmão de Avril, Charles Travis. James Incandenza foi um promissor jogador de ténis que mais tarde se dedicou ao cinema, como realizador. Os filmes de James são uma parte interessante da narrativa porque embora a sua obscuridade não faça deles sucessos comerciais, tornam-se sucessos académicos dignos de investigação. James fundou ainda a Academia de Ténis de Enfield, uma escola feita à medida de crianças e adolescentes que virão a ser tenistas profissionais. É na Academia de Enfield que vivem Hall e Mario, embora este último não pratique ténis nem assista às aulas devido a graves problemas de saúde. Hall, por seu turno, é um extraordinário aluno e jogador que tem um futuro promissor como tenista profissional. Orin, o mais velho dos três irmãos, trocou o ténis pelo futebol americano e é um jogador profissional da modalidade.

A par da Academia de Enfield como cenário da narrativa temos a Ennet House, um centro de desintoxicação para alcoólicos e toxicodependentes que abriga outras tantas personagens centrais da obra, como por exemplo: Don Gately que está em liberdade condicional por ter assassinado um homem aquando de um assalto e que é um dos instrutores da casa, Kate Gompert que lida há anos com uma depressão extremamente grave e incurável, Joelle van Dyne, a musa de James Incandenza em vários dos seus filmes que se tentou suicidar com uma overdose, Lenz, um louco que tortura animais para contrariar o vício e mais alguns seres retirados diretamente de reuniões de alcoólicos e narcóticos anónimos, num retrato fiel das suas diferentes realidades.

Por fim, mas não com menos importância, temos Marathe e Steeply, um Assassino de Cadeira de Rodas e um espião americano, respetivamente. Estas duas personagens vão intercalando a narrativa com um plano ameaçador que envolve uma arma letal que dá pelo nome de “Entretenimento”. Não percebendo bem quem é que engana quem, os dois tentam chegar a essa arma (um cartucho tipo vídeo) que mata qualquer um por inação assim que se começa a ver. Não será difícil, nesta parte, perceber de quem é a autoria de semelhante obra: James Incandenza. O grande problema é que James Incandenza morreu antes do início desta narrativa e ninguém sabe, ou ninguém diz, onde se encontra a sua última obra.

A Piada Infinita não é um livro fácil de ler. Estamos constantemente em movimento tanto em termos de cenários como em termos temporais. As personagens misturam-se e as conversas também. Vivemos entre os vários espaços da Academia de Ténis e da Ennet House e às vezes damos por nós num deserto com um terrorista ou numa reunião de alcoólicos anónimos. Ouvimos os pensamentos mais íntimos de certas personagens e temos acesso a descrições intermináveis e pormenorizadas acerca das mais variadas coisas como, por exemplo, os efeitos de substâncias psicotrópicas. Temos vontade de rir e de chorar, às vezes ficamos apreensivos e outras vezes com vontade de desistir. Mas, no fim, Wallace ganha-nos.

Rock and Rolla

Excerto

“Nem sequer consegue olhar F.F. Nos olhos, sentado na fila dos Crocodilos, enquanto diz que naquele momento a mera ideia de um Deus compreensivo o faz vomitar de medo. Uma coisa que não se pode tocar nem ouvir nem ver: muito bem. Está bem. Mas uma coisa que nem sequer se possa sentir? Porque é isso que ele sente quando tenta compreender uma coisa à qual rezar com sinceridade. O Nada. Diz que quando tenta rezar consegue ver uma espécie de imagem mental das ondas das suas orações a subir e a subir sem que ninguém as detenha, indo, indo e irradiando no espaço e sobrevivendo-lhe e indo, mas sem nunca chocar com alguma coisa no exterior é muito menos com alguma coisa que tenha ouvidos. E muito, muito menos contra alguma coisa que tenha ouvidos e se importe. Sente-se indignado e envergonhado por estar a falar disto em vez de mostrar como é bom conseguir passar mais um dia sem ingerir uma substância, mas as coisas são assim mesmo. É isto que se está a passar.”

[David Foster Wallace, in A Piada Infinita]

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