Sándor Márai: A Intenção é tudo

Janeiro 9, 2016/Excerto/3 min. a ler

© Publicações Dom Quixote, 1999
As Velas Ardem Até ao Fim
– Sándor Márai

“A amizade, pensava eu – e tu que andaste mais pelo mundo fora, certamente sabes mais e melhor que eu, aqui na minha solidão campestre -, é a relação mais nobre que pode haver entre os seres vivos humanos. Os seres vivos organizam-se para prestar ajuda mútua… às vezes têm dificuldade em ultrapassar os obstáculos que enfrentam, mas há sempre criaturas fortes, prontas a ajudar, em todas as comunidades vivas. Encontrei centenas de exemplos disso no mundo animal. Entre pessoas, vi menos exemplos. Para ser mais exacto, não vi nenhum. As simpatias que vi nascer entre pessoas diante dos meus olhos, acabaram sempre por se afundar nos pântanos do egoísmo e da vaidade. A camaradagem, o companheirismo, às vezes parecem amizade. E as pessoas também fogem da solidão, entrando em todo o tipo de intimidades de que, a maior parte das vezes se arrependem, mas durante algum tempo podem estar convencidas de que esta intimidade é uma espécie de amizade.
Uma pessoa imagina que a amizade é um serviço.
Mas o amigo, assim como o namorado, não está à espera de recompensa pelos seus sentimentos. Não quer contrapartidas, não considera a pessoa que escolheu para ser seu amigo como uma criatura irreal, conhece os seus defeitos e aceita-a assim, com todas as suas consequências. Isto seria o ideal. E na verdade, vale a pena viver, ser Homem, sem esse ideal?
E se um amigo falha, porque não é um verdadeiro amigo, podemos acusá-lo, culpando o seu carácter, a sua fraqueza?
Quanto vale aquela amizade, em que só amamos o outro pela sua virtude, fidelidade, perseverança?
Quanto vale qualquer afecto que espera recompensa?
Não seria nosso dever aceitar o amigo infiel da mesma maneira que o amigo abnegado e fiel?
Não seria isso o verdadeiro conteúdo de todas as relações humanas, esse altruísmo que não quer nada e não espera nada, absolutamente nada do outro?
E quanto mais dá, menos espera em troca?
E se entrega ao outro toda a confiança duma juventude, toda a abnegação da idade viril e finalmente oferece a coisa mais preciosa que um ser humano pode proporcionar a outro ser humano, a sua confiança absoluta, cega e apaixonada, e depois se vê confrontado com o facto de o outro ser infiel e vil, tem direito de se ofender, de exigir vingança?
E se se ofende e grita por vingança, era realmente amigo, o traído e abandonado?
Vês, dediquei-me a estas questões teóricas quando fiquei sozinho. Naturalmente a solidão não me deu resposta. Nem os livros me deram a resposta perfeita. Nem os livros antigos, os estudos dos pensadores chineses, hebreus e latinos, nem os modernos que falam sem rodeios, mas dizem sobretudo palavras e não a verdade.
Os livros e as recordações acumulavam-se e adensavam-se. E cada livro continha uma pitada da verdade e cada recordação insinuava que é vão tentar conhecer a verdadeira natureza das relações humanas, porque nenhum conhecimento torna uma pessoa mais sábia. E é por isso que não temos o direito de exigir a verdade e a fidelidade absolutas daquela pessoa que um dia tínhamos aceite como amigo, mesmo que os acontecimentos tivessem demonstrado que esse amigo foi infiel.
Porque existe a verdade baseada nos factos, aconteceu isto e aquilo. Aconteceu coisa e tal. Neste ou naquele momento. Não é difícil averiguar isso. Os factos falam por si. Todos os factos são reveladores e gritam mais alto que os réus submetidos à tortura.
Mas, às vezes os factos são apenas consequências deploráveis.
Uma pessoa não peca com aquilo que faz, mas com a intenção, com a qual comete isto ou aquilo.
A intenção é tudo.
Os grandes sistemas jurídicos religiosos do passado sabem e proclamam isso.
Uma pessoa pode cometer infedilididade, um acto infame, sim, até o pior, pode matar, e, todavia, manter-se puro por dentro.
Um acto ainda não é equivalente à verdade.
É sempre apenas uma consequência, e se um dia, uma pessoa desempenha o papel de juíz e quer julgar, não pode contentar-se com os factos do relatório da polícia, tem que averiguar aquilo a que os juristas chamam motivo.
O facto da tua fuga é fácil de compreender.
O motivo é que não.”

TeresaRolla.com