O Século, de Ken Follett

Janeiro 5, 2016/Review/5 min. a ler

Trilogia “O Século” © Editorial Presença 2010-2014
Livro 1: A Queda dos Gigantes (Fall of Giants)
Livro 2: O Inverno do Mundo (Winter of the World)
Livro 3: No Limiar da Eternidade (Edge of Eternity)
2010-2014, Ken Follett

“O britânico Ken Follett é um dos mais bem-sucedidos autores contemporâneos. Dos vinte e nove livros que escreveu, foram já vendidos mais de 150 milhões de exemplares. A trilogia O Século, o seu projecto mais ambicioso até ao presente, conta a história do século XX através do olhar de cinco famílias relacionadas entre si.”

Foi só em 2015 que conheci Ken Follett e não podia ter esperado uma surpresa melhor. Foram muitas as vezes que esbarrei com o nome dele nas prateleiras de uma qualquer livraria mas, sem saber bem porquê, achava-o um daqueles escritores tipo Nicholas Sparks que faz com que nos percamos em infindáveis títulos que contam a mesma história, e nunca senti vontade de o tirar da prateleira. (Sim, tirar um livro da prateleira de uma livraria já é meio caminho andado para o ler!) Eram sempre demasiados títulos juntos, nessas paredes de exposição literária, para que fossem todos bons, pensava eu na minha ingenuidade preconceituosa como são todas as ingenuidades.

Até que num dia como outro qualquer esbarrei de frente com A Queda dos Gigantes e além de o tirar da prateleira tive a imediata sensação de que estava perante uma surpresa boa que qualquer leitor assíduo espera encontrar sempre que entra numa livraria (e que poucas vezes acontece!). Talvez andásse numa fase de “paixão literária” pelo século XX, o que contribuiu sem qualquer dúvida para esta sensação imediata, mas o melhor de tudo ainda estava para vir: Ken Follett fez-me apaixonar (ainda) mais pela História humana, por aquilo que fomos e já não somos mais, por aquilo que éramos e continuamos a ser, mas especialmente pelos grandes acontecimentos que moldaram a humanidade e nos trouxeram até aqui.

“Ken Follett reconstrói uma era com todo o pormenor e conduz-nos através dos actos insensatos e por vezes excessivos dos seus protagonistas reais e imaginários, entrelaçando magistralmente episódios dramáticos e uma vasta informação histórica numa narrativa vibrante e irresistível do princípio ao fim”

Estamos em 1911 quando começa a narrativa d’A Queda dos Gigantes e em 1989 quando termina No Limiar da Eternidade. Follett é exímio no uso que faz destes 78 anos de humanidade mas não é só isso que nos faz sentir render logo nas primeiras páginas. A enormidade de Follett, para mim, está na construção das personagens e na gestão que faz entre a ficção e a realidade. Um século de História e um século de Estórias que se lêem num fôlego não é, de todo, para qualquer um. A magnificência de Follet sente-se ao acompanhar a jovem Maud do primeiro livro que, ao longo do tempo, como na realidade, se transforma na avó Maud do terceiro livro. Quando pensamos no galante e irresistível Fitz do livro um não estamos preparados para pensar no velho Fitz que usa bengala no livro três. Não é usual termos a possibilidade de acompanhar a personagens durante tanto tempo e é aí que Follett nos ganha também. As cinco famílias do primeiro livro são as cinco famílias, ou o que resta delas, do último livro e essa longevidade, essa passagem pela vida de todos os dias, esse percorrer o mundo através de personagens que podiam perfeitamente ter existido (e algumas existiram mesmo!), dá-nos a sensação de pertença a uma era, a um tempo, que não é o nosso.

De uma família de mineiros inglesa à aristocracia russa, de Berlim aos EUA, quantas pessoas foram afectadas, (de maneira diferente, claro!), pela Primeira Grande Guerra? E como é que depois dessa experiência o mundo se deixou consumir outra vez em frentes de batalha? O que é que a Revolução Russa tem a ver com isto? E o que é que a ascensão do Terceiro Reich tem em comum com a Guerra Civil Espanhola? Como é que chegámos ao Holocausto e à inauguração da era atómica, Hiroxima, Nagasáqui e ao início da Guerra Fria? E como é as polícias secretas que percorriam o mundo separado pelo Muro de Berlim viam a realidade? O que é que o nascimento do Rock londrino e o movimento dos Direitos Civis nos EUA, Martin Luther King e a dissolução do Bloco Soviético têm em comum? São quase 3000 páginas de Mundo que Ken Follett nos oferece. A nós, só nos resta agradecer.

PS.: Se a História fosse ensinada assim, com paixão e precisão, talvez mais pessoas gostassem de a voltar a percorrer.

Grã-Bretanha, Janeiro de 1914
(A Queda dos Gigantes)

“Tinha de ser paciente com Bea: lembrou a si próprio que a mulher era estrangeira, se sentia isolada num país estranho, longe da família e de tudo quanto lhe era querido. Nos primeiros meses de casamento, quando ele ainda andava deslumbrado com a sua beleza, o seu perfume e o toque macio da sua pele, tudo fora mais fácil. Retirou a cigarreira do bolso.
– Não fumes aqui dentro – disse-lhe a mulher.
Tomou aquilo por concordância e encaminhou-se para a porta. Quando ia a sair, parou e disse: – Olha, não te comportes assim diante do rei e da rainha, está bem? A agredir os criados, quero eu dizer.
– Eu não a agredi, espetei-a com um alfinete para que aprendesse a lição.
Os russos faziam aquele tipo de coisas. Quando o pai de Fitz se queixara da preguiça dos criados que trabalhavam na Embaixada britânica em Sampetersburgo, os seus amigos russos tinham-lhe dito que ele não lhes batia o suficiente.
Fitz explicou-se a Bea: – O monarca ficaria constrangido se visse semelhante cena. Tal como já te tentei fazer ver, em Inglaterra não temos esse costume.
– Quando eu era pequena obrigaram-me a assistir ao enforcamento de três camponeses – afirmo ela. – A minha mãe não gostou da ideia mas o meu avô fez questão disso. Disse-me: “Isto é para te ensinar a castigar os criados. Se não os esbofeteares ou chicoteares por pequenas infracções como a falta de cuidado ou a preguiça, acabarão por cometer pecados mais graves e morrer no cadafalso.” Ele ensinou-me que, a longo prazo, a indulgência para com as classes baixas é uma crueldade.”

Berlim, Fevereiro de 1933
(O Inverno do Mundo)

“Walter parecia pensar que ela talvez estivesse a exagerar. Num tom mais alegre, disse: – A boa notícia é que o Hitler não conseguiu conquistar a maioria dos Alemães. Na última eleição, os nazis tiveram um terço dos votos. Não obstante, foram o partido mais votado, mas felizmente o governo liderado por Hitler é minoritário.
– É por isso que ele exigiu outras eleições – acrescentou Maud. – Necessita de uma maioria clara para transformar a Alemanha na ditadura brutal por que anseia.
– E vai tê-la? – perguntou Ethel.
– Não – respondeu Walter.
– Sim – contrapôs Maud.
Walter esclareceu: – Não acredito que o povo alemão venha de facto a votar por uma ditadura.
– Mas as eleições não vão ser justas! – protestou Maud, irritada. – Olhem o que aconteceu hoje à minha revista. Quem quer que critique os nazis corre perigo. Entretanto, a propaganda deles está por toda a parte.
Lloyd constatou: – Parece que ninguém lhes dá luta! – Tinha pena de não ter chegado uns minutos mais cedo ao Der Demokrat nessa manhã, para ter esmagado uns quantos Camisas Castanhas. Apercebeu-se que fechara a mão num punho e forçou-se a abri-la; a indignação, porém, não se dissipou. – Porque é que os esquerdistas não assaltam os escritórios das revistas nazis? Dêem-lhes a provar do mesmo remédio!
– Não podemos responder à violência com violência! – declarou Maud com ênfase. – O Hitler anda à procura de uma desculpa para nos cair em cima: declarar uma emergência nacional, eliminar os direitos civis e atirar os opositores para a cadeia. – A sua voz adquiriu um tom de súplica. – Temos de evitar dar-lhes esse pretexto, por mais difícil que seja.”

Mar Negro, Outubro de 1964
(No Limiar da Eternidade)

“Sentado no seu gabinete com pouco para fazer, Dimka reparou que os jornais ocidentais desse dia anunciaram que o primeiro-ministro britânico também fora deposto . Sir Alec Douglas-Home, um conservador da classe alta, fora substituído por Harold Wilson, líder do Partido Trabalhista, nas eleições nacionais.
Para Dimka, que se sentia muito cínico, havia algo de errado quando um país agressivamente capitalista podia despedir o seu primeiro-ministro aristocrata e instalar um social-democrata por vontade do povo, ao passo que, no Estado comunista líder do mundo, essas coisas eram planeadas em segredo por uma pequena elite que mandava, sendo depois anunciadas, dias mais tarde, a uma população dócil e impotente.
Os britânicos nem sequer tinham proibido o comunismo. Trinta e seis candidatos comunistas tinham concorrido ao Parlamento. Não fora eleito nenhum.
Uma semana antes, Dimka teria contrabalançado essas ideias com a superioridade absoluta do sistema comunista, em especial como seria depois de ser reformado. Agora, porém, a esperança de uma reforma definhara, e a União Soviética fora preservada com todas as suas falhas por um futuro previsível. O que estava a acontecer era um salto para trás. A elite soviética rejeitava o progresso e optava pelo que conhecia melhor: o controlo rígido da economia, a repressão de vozes dissidentes, o evitar de experiências. Deixá-los-ia confortáveis… e manteria a União Soviética arrastando-se atrás do Ocidente em riqueza, poder e influência global.”

Rock and Rolla

TeresaRolla.com