Middlemarch, de George Eliot

Dezembro 30, 2015/Review/3 min. a ler

Título: Middlemarch © Relógio D’Água Editores, 2011
Título original: Middlemarch – A Study of Provincial Life
1871-72, George Eliot

Middlemarch é o mais importante romance saído do período vitoriano. Nele, George Eliot aborda todos os temas fulcrais da vida moderna: arte, religião, ciência, política, comportamentos, sociedade e relações humanas.

George Eliot não é, como o nome indica, um homem. Estávamos em 1819 quando nasceu, na Grã-Bretanha, Mary Anne Evans, uma mulher que viria a ser um Homem-Escritor. Segundo a própria, naquela época a literatura produzida por mulheres era considerada ligeira e de pouca profundidade ontológica e esse não era, de todo, o seu objectivo. O que fazer num mundo em que os homens detêm o comando de todas as situações e as mulheres são consideradas simples artefactos decorativos e reprodutivos? A ideia de Mary Anne é clara: apresentamo-nos ao mundo como homens, e tudo muda.

Middlemarch começa com a perspectiva de Dorothea Brooke, a heroína e a personalidade mais dissecada de toda a estória. Dorothea é um espírito bom que se vê confrontado com a vida de todos os dias, isto é, com a banalidade e a promiscuidade dos mais diversos espíritos que a rodeiam. Dorothea é o cume da moralidade e é exactamente daí que o romance parte, desse nível quase inatingível de bondade e rectidão. Afinal, quanto consegue aguentar uma alma até se corromper? Ou melhor, até que ponto nos podemos corromper sem sermos menos bons? Podemos dizer que estas são as perguntas-chave de toda a trama e muitas são as personagens que lhes tentam responder, ao cruzarem-se nas mais diversas nuances, ao longo das 809 páginas.

De Dorothea podemos passar a Edward Casaubon, o sábio estudioso (que se vem a revelar um frustrado) por quem a heroína se sente atraída na sua ingenuidade característica que crê no bem supremo da sabedoria e considera que todos os outros se regem pelos mesmos princípios. Mr. Casaubon é uma personagem-tipo que nos remonta para todas as pessoas que em vez de nos impelirem em frente nos afundam num pântano qualquer sem que tenhamos consciência do quão enterrados podemos ficar.

Para enfatizar ainda mais esta personalidade destrutiva, Mr. Casaubon traz consigo, não de forma linear, uma outra personagem-tipo, o artista e amante das coisas belas, que é protagonizado por Will Ladislaw, seu sobrinho. Não chega a haver nenhum triângulo amoroso entre estas três personagens (ou não estivéssemos a falar de almas que pintavam sonhos imaculados), mas é no triângulo criado pelas suas personalidades que se desenha o grosso desta história. A par desta forma geométrica temos o círculo de Middlemarch maioritariamente composto pela bela e mimada Rosamund Vincy, que protagoniza todo o egoísmo de que um ser humano é capaz, por Tertius Lydgate, um médico brilhante que chega de longe e põe a cidade em alvoroço devido à sua duvidosa moralidade, por Mr. Brooke e Mr. Bulstrode, ambos homens de negócios que põem essa mesma moralidade à prova e por Mary Garth e Fred Vincy, amigos de infância que se tornam marido e mulher contra todas as previsões.

Middlemarch é um romance de chá quente, lareira acesa e inverno lá fora.

Rock and Rolla

Excerto

“A jovem criatura que o havia venerado com uma perfeita confiança convertera-se rapidamente numa esposa crítica; e os primeiros vestígios de crítica e ressentimento haviam deixado nele uma marca que nenhuma mostra de ternura e submissão podiam jamais erradicar. Na sua perspicaz interpretação, o actual silêncio de Dorothea era uma forma de rebelião contida; se ela fazia um comentário imprevisto, ele via nisso a consciência e a afirmação de uma superioridade; se ela lhe respondia amavelmente, ele via aí um sinal de prudência assaz irritante; e se ela aquiescia, era porque estava a fazer um esforço de tolerância. A tenacidade com que Mr. Casaubon tentava ocultar este drama interior tornava esse drama ainda mais intenso, tal como ouvimos com mais acuidade o que não queremos que outros ouçam. Bem longe de me espantar com esta infelicidade de Mr. Casaubon, considero-a bastante comum. Não é verdade que um grão de areia diante dos olhos é suficiente para manchar toda a glória do mundo, permitindo-nos ver apenas a mancha? Não conheço grão de areia mais problemático do que o eu. E se Mr. Casaubon tivesse optado por revelar o seu descontentamento – a suspeita de que já não era alvo de uma adoração isenta de críticas – quem poderia negar que o mesmo era bem fundado? Pelo contrário, haveria que acrescentar-lhe ainda uma possante razão, que nem ele próprio havia formulado explicitamente – a saber: que não era uma pessoa digna de ser amada sem reservas. Mas Mr. Casaubon tinha esta suspeita como tinha outras, sem porém a confessar; e, como todos nós, achava reconfortante poder ter uma companheira incapaz de fazer tal descoberta.”

TeresaRolla.com