Purity, de Jonathan Franzen

Dezembro 29, 2015/Review/3 min. a ler

Título: Purity © Publicações Dom Quixote, 2015
Título original: Purity
2015, Jonathan Franzen

Jonathan Franzen nasceu em 1959, no Illinois, e vive em Nova Iorque. Foi considerado pela Granta e pelo The New York Times como um dos melhores romancistas norte-americanos com menos de quarenta anos. Poucas obras conseguiram um reconhecimento da crítica e do público tão unânime como Correcções. O seu romance Liberdade apareceu em todas as principais listas de jornais e revistas como o livro do ano. Em 2010 Franzen foi capa da revista Time – uma honra que não era concedida a um autor vivo há uma década.

Já “conheço” o Jonathan Franzen há alguns anos. Comecei pelo Liberdade, editado em Portugal em 2010 e fiquei rendida. Gostei tanto que, logo a seguir, li o Correcções, o primeiro romance do autor editado em 2001. Jonathan Franzen tinha em mim uma leitora assídua, até ao Purity.

Acabei hoje de ler este novo livro do “grande romancista americano” que foi capa da Time e estou desiludida. A história tinha tudo para ser vencedora mas o enredo e as personagens deixam-nos como que perdidos numa trilha desconexa. É como se o autor tivesse desistido de aprimorar os pormenores, se tivesse cansado da história e tivesse editado um rascunho de uma obra-prima. Franzen não era assim, pelo menos o que eu conhecia dele não era isto. Era cuidado e metódico nos pormenores, era simplista ao ponto de uma frase no sítio certo nos fazer parar cinco minutos para pensar. E nós, leitores, sabemos o quão raro e precioso é esse momento em que um escritor tem a capacidade para nos alhear ao ponto de questionarmos a realidade através das suas palavras. Franzen desiludiu-me, mas vou para sempre recomendá-lo como autor de Liberdade (2010) e Correcções (2001).

Purity é uma miscelânea de actualidades que vão aparecendo de forma desconexa ao longo da narrativa. Da Alemanha de Leste de 1980 a Nova York de 2002 a história é uma desconstrução daquilo que unanimemente o Ocidente considera ser a realidade. Purity, como o nome indica, é a parte incólume que nasce num mundo conspurcado. Andreas é um homem que teve a infelicidade de nascer numa Alemanha de Leste fechada sobre si mesma, onde o mundo se media pelas palmas das mãos. Estas duas personagens constroem assim uma dialéctica que vai preencher todo o romance, ou não estivessem elas ligadas por laços invisíveis de realidades partilhadas a que, só no fim, teremos acesso.

Deixo-vos com a que é, para mim, a melhor parte do Purity (2015) que, como já disse, tinha tudo para ser uma obra-prima, mas não é.

“Os apparatchicks eram outro tipo eterno. O tom dos novos apparatchicks, nas suas palestras TED, em lançamentos de produtos com o apoio de powerpoints, em depoimentos perante parlamentos e congressos, em livros de títulos utópicos, era um xarope untuoso de convicção oportunista e capitulação pessoal de que se lembrava bem do tempo daRepública. Não conseguia ouvi-los sem pensar na letra dos Steely Dan So you grab a piece of something that you think is gonna last. (A rádio do setor americano tinha passado a canção vezes sem conta, para os ouvidos jovens do sector soviético.) Os privilégios disponíveis na República eram rascas, um telefone, um andar com algum ar e luz, a importantíssima autorização de viajar, mas talvez não fossem mais rascas do que ter x seguidores no Twitter, um perfil no Facebook com muitos gostos, e um ou outro anúncio de quatro minutos na NBC. O verdadeiro atractivo do apparatchick era a segurança da pertença. Cá fora, o ar cheirava a enxofre, a comida era má, a economia moribunda, o cinismo galopante, mas lá dentro a vitória sobre o inimigo de classe estava garantida. Lá dentro, o professor universitário e o engenheiro aprendiam aos pés do operário alemão. Cá fora, a classe média desaparecia mais depressa do que as calotas glaciais, xenófobos ganhavam as eleições, tribos em guerra chacinavam-se religiosamente, mas lá dentro as desconcertantes novas tecnologias tornavam obsoleta a política tradicional. Lá dentro, comunidades informais descentralizadas reescreviam as regras da criatividade e a revolução compensava quem corria riscos e percebia o poder das redes. O Novo Regime até reciclava as palavras de ordem da República, colectivo, cooperativo. O axioma de ambas era que estava a emergir uma nova espécie de humanidade. Nisto estavam de acordo os apparatchicks de todas as castas. Nunca parecia preocupá-los que as suas elites dirigentes fossem formadas pela velha espécie de humanidade brutal e gananciosa.
Lenine fora um homem que corria riscos. Trotsky também, até Estaline fazer dele o Bill Gates da União Soviética, o cripto-reacionário banido. […] À semelhança dos velhos politburos, o novo politburo apresenta-se como o inimigo das elites e o amigo das massas, vocacionado para dar aos consumidores aquilo que eles queriam, mas para Andreas (que, reconheça-se, nunca aprendera a desejar coisas) era como se a Internet fosse principalmente governada pelo medo: o medo da impopularidade e da reprovação, o medo de falhar, o medo do desprezo ou do esquecimento. […]
Havia no interior do Novo Regime uma quantidade de Snowdens em potência, funcionários com acesso aos algoritmos que o Facebook usava para converter em dinheiro a privacidade dos seus utilizadores e o Twitter usava para manipular memes que alegadamente se geravam automaticamente. Mas a verdade é que as pessoas inteligentes estavam muito mais aterrorizadas com o Novo Regime do que com aquilo que o regime havia convencido as pessoas menos inteligentes a recearem, a NSA, a CIA – era uma importação directa do guião totalitário, esta coisa e uma entidade renegar os seus próprios métodos de terror imputando-os ao inimigo e apresentando-se como a única defesa contra eles – e quase todos os Snowdens em potência mantinham a boca fechada. Por duas vezes, porém, pessoas do interior do sistema haviam abordado Andreas – curiosamente ambos trabalhavam para a Google – oferecendo-lhe conteúdos de emails internos e software de algoritmos que revelavam claramente como a companhia armazenava dados pessoais dos utilizadores e filtrava ativamente informação que alegava refletir passivamente. Em ambos os casos, receando o que a Google podia fazer-lhe, Andreas tinha-se recusado a transferir os documentos. Para preservar a sua autoestima, tinha sido franco com os informadores: “Não posso fazer isso. Preciso de ter a Google do meu lado.”

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